O grupo interinstitucional NEVE (NÚCLEO DE ESTUDOS VIKINGS E ESCANDINAVOS, criado em 2010) tem como principal objetivo o estudo e a divulgação da História e cultura da Escandinávia Medieval, em especial da Era Viking, por meio de reuniões, organização de eventos, publicações e divulgações em periódicos e internet. Parceiro internacional do Museet Ribes Vikinger (Dianamarca), Lofotr Viking Museum (Noruega), The Northern Women’s Art Collaborative (Universidade de Brown, EUA), Reception Research Group (Universidad de Alcalá) e no Brasil, da ABREM (Associação Brasileira de Estudos Medievais) e PPGCR-UFPB. Registrado no DGP-CNPQ. Contato: neveufpb@yahoo.com.br

terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

Como escolher um tema e fonte em pesquisa escandinavística



COMO ESCOLHER UM TEMA E FONTE EM PESQUISA ESCANDINAVÍSTICA

Prof. Dr. Johnni Langer

Uma das questões que mais aflige os graduandos brasileiros é a escolha de um tema para a sua pesquisa, seja em trabalhos de conclusão de curso ou em projeto para mestrado. Não é fácil de responder essa problemática, pois temos que levar em conta muitas vezes: a área de pesquisa; a instituição; o orientador – e suas respectivas pesquisas, temas e linhas de investigação em programa de pós graduação. Nem sempre o tema que o graduando tem interesse necessariamente pode ser considerado relevante para o seu orientador ou instituição e, muitas vezes, o discente é levado a caminhos que não são necessariamente suas preferências pessoais.

O presente texto é apenas uma pequena colaboração e não pode ser considerado absoluto. Já fornecemos um pequeno texto sobre a questão do mestrado em Escandinavística no Brasil (Como cursar mestrado em estudos nórdicos no Brasil e exterior) e o nosso principal referencial a ser adotado aqui é a produção historiográfica brasileira sobre estudos nórdicos, do qual já realizamos um levantamento neste artigo: Contestação de uma historiografia dos estudos nórdicos brasileiros (entre as páginas 504 e 506).

Ao final do texto, incluímos um levantamento online de algumas das principais fontes históricas, literárias e mitológicas para o tema da Escandinávia Medieval.

1.      Escolhendo a fonte:

A fonte primária é o mais importante em qualquer pesquisa. Ela deve ser definida antes do recorte temático ou depois, dependendo da situação. Como em língua portuguesa existem poucas fontes traduzidas, o interessado deve necessariamente ler espanhol ou inglês, pela facilidade no acesso em material online ou impresso. Lembramos que uma mesma fonte pode ter referencias teórico-metodológicos diferenciadas, por exemplo, uma saga islandesa pode ser abordada tanto por historiadores quanto por pesquisadores da área de Letras, entre outras.

- Sagas islandesas: um dos materiais preferidos dos pesquisadores, por conter material prosaico e de mais fácil leitura. Recomendamos aos pesquisadores iniciais escolherem uma saga para análise dentro de um tema e critério (tanto para TCC quanto mestrado), ao invés de escolher um tema e empregar várias sagas ao mesmo tempo (o que exige mais experiência e conhecimento). Algumas sagas, como a Saga dos Volsungos e a Saga de Njall o queimado, foram temas de dezenas de trabalhos no Brasil, devido ao fato de terem sido traduzidas, então  a originalidade de qualquer nova pesquisa fica muito mais difícil com elas – não é impossível, mas o pesquisador deve ter novas abordagens ou referenciais inovadores. Outras que também já receberam algum tipo de análise foram a Saga de Hervör e a Saga dos Ynglingos. As possibilidades são imensas, mas para novas pesquisas recomendamos especialmente a Saga de Bosi, Saga Eyrbyggja, Saga de Egil, Saga de Laxdœla e grande parte da Heimskringla (descontando a Ynglinga saga).

O tema de pesquisa nas sagas islandesas: diversos aspectos ainda foram poucos debatidos no Brasil e América Latina. Por exemplo, na área de Letras, ainda não temos absolutamente nenhum tipo de publicação que aprofunde as discussões teórico-conceituais do que seja uma saga. Esse conceito pode ser aplicado para a ficção regionalista moderna do país? (como vem sendo feito em várias dissertações nacionais). Saga pode ser generalizado para qualquer tipo de literatura épica da Antiguidade ou medievo? Também estudos que realizem comparações entre a literatura europeia e escandinava do medievo são praticamente inexistentes – impedindo o avanço dos estudos de literatura nórdica, ao contrário com a área de literatura medieval que é bem consolidada no país.

Na área de História existem alguns debates sobre o uso das sagas islandesas – elas contém elementos históricos antigos ou são apenas produtos discursivos da Idade Média Central e Tardia sobre a Era Viking? O debate em línguas estrangeiras é amplo e o interessado deve acompanhar também algumas produções da área de Letras sobre o tema (especialmente em inglês). No Brasil ainda existem poucos estudos sobre alguns temas em sagas especificas – o papel das mulheres; o discurso (ou práticas antigas?) sobre a magia e os ritos pagãos; festas; calendários e sazonalidade; tradições populares; diversos aspectos do cotidiano (como alimentação), entre outros.

- Crônicas medievais

A Gesta Hammarbugensis de Adão de Bremen e a Gesta Danorum de Saxo Gramaticus são as crônicas medievais nórdicas que receberam mais pesquisas no Brasil, mas ainda sim, elas ainda podem fornecer parâmetros para novos olhares, especialmente sobre historiografia medieval, política, discursos de identidade, etc. Outras crônicas são quase desconhecidas no país, como a Crônica Sueca, Morkinskinna, Crônica de Roskilde, Crônica de Lejre, Crônica da Zelândia Antiga, Gesta Cnutonis, Crônica de Erick (Erikskrönikan), são fontes excelentes para a pesquisa em História Política (um referencial pouco abordado pela Escandinavística brasileira) e muitas questões envolvendo Mito, História e Genealogia, hagiografia, cristianização, requerendo por parte do pesquisador leituras aprofundadas em Medievística. Obras renascentistas, como a História dos Povos Nórdicos, de Olaus Magnus, são preciosas para se entender a Idade Média Tardia e são fartas de referências sobre folclore, paganismo, magia, estereótipos sobre fronteiras, etc.

Semelhante às crônicas, os códigos jurídicos do medievo nórdico praticamente foram ignorados pela produção brasileira, como a Leis de Gulathing, Gutalagen (lei da Gotlândia), Grágás (leis do ganso cinzento), Járnsíða, Jónsbók, entre outras, sendo fontes importantes para diversos aspectos da sociedade, como normas sociais, família, parentesco, cotidiano, comércio, crenças, propriedade, etc., temas comuns tanto para o referencial da História Social quanto Cultural.

Algumas das principais crônicas para o estudo da Escandinávia Medieval foram analisadas no Dicionário de História e Cultura da Era Viking (Editora Hedra, 2017, consultar verbete remissivo “Fontes primárias”).

- As Eddas

Alguma das principais fontes investigadas pela Escandinavística brasileira, a Edda Poética e a Edda em Prosa, precisam passar por novos referenciais analíticos, temáticos e em consonância com a produção internacional. Um das melhores abordagens que recomendamos atualmente é a cosmologia, especialmente a desenvolvida pelos arqueólogos dinamarqueses, do qual já nos ocupamos em um artigo: A Arqueologia da Religião Nórdica na Era Viking (pp. 16-21). 

Outro tipo de abordagem sobre Mitologia Nórdica que ainda é precária no Brasil é a iconográfica, especialmente aplicada a objetos da cultura material (monumentos e objetos móveis) e refletida em conjunto com as fontes literárias. Também o estudo de simbolismo em monumentos e temas da Mitologia Nórdica ainda vem sendo empregado de forma muito limitada. Também existem possibilidades de novas aplicações do debate da Mitografia, em consonância com a Medievística e a Historiografia Medieval.

- Poesia escáldica e Eddica Minora

Tanto de um ponto de vista literário quanto de conteúdos históricos, mitológico e religioso, a poesia escáldica e poemas éddicos de fora do Codex Regius ainda são repletos de possibilidades investigativas. Estudos comparativos, linguísticos e codicológicos também ainda foram pouco empregados no Brasil.

2.      O referencial da bibliografia secundária:

Uma ótima maneira de obter um tema para pesquisa é conhecer com profundidade a bibliografia secundária de uma área, como os estudos de Mitologia ou Literários, principalmente após escolher a fonte primária. A preferência são os grandes manuais sistematizadores, como Old Norse Icelandic Literature and Culture (Rory McTurk), Old Norse Icelandic Literature (Clover e Lindow) ou The Viking World (Stefan Brink) O debate com o orientador e com grupos de pesquisa (como o do NEVE no facebook), também podem colaborar para o pesquisador amadurecer melhor o seu recorte temático. Outras questões, como metodologia, referencial teórico e problemáticas, deve surgir naturalmente, com a leitura, experiência e profundidade de conhecimento no tema e na orientação.

Finalizamos o texto com algumas sugestões mais objetivas de temas para pesquisa (agradeço à profa. Luciana de Campos pelo auxílio na área de Letras e também utilizamos os conteúdos do curso de extensão Teorias e Métodos da Escandinavística), seguido de um levantamento online de fontes históricas, literárias e mitológicas sobre a Escandinávia Medieval.

ÁREA/EIXO TEMÁTICO

TEMAS

FONTES
TEORIA/METODOLOGIA
História
Letras
Antropologia
Indumentária: vestuário masculino e feminino, moda
Sagas islandesas, crônicas, cultura material, iconografia.
História Cultural
Antropologia Cultural
Literatura comparada


História
Ciências das Religiões
Religião e poder no mundo pré-cristão e cristão medieval
Sagas islandesas, crônicas, cultura material, fontes rúnicas
História Política, Antropologia política



História
Ciências das Religiões
Festas, banquetes, alimentação e poder, alimentação e religião


Sagas islandesas, Eddas, crônicas, cultura material
História da Alimentação
História Política
História Cultural das Religiões

História
Cultura política
Reinos nórdicos
Aspectos legais e jurídicos

Sagas islandesas, Eddas, crônicas, cultura material
História política
Antropologia social
Letras
Ciências das Religiões
História
Sobrenatural, monstros, fantástico, folclore
Sagas islandesas, Eddas, crônicas, cultura material, fontes rúnicas

Folclorística
História Cultural das Religiões
Literatura Comparada
Ciências das Religiões
História
Rito e espacialidade
Mito, rito e paisagem arqueológica
Sagas islandesas, Eddas, crônicas, cultura material, fontes rúnicas
História Cultural das Religiões
Ecocrítica
Teorias do rito
Arqueologia das Religiões

Ciências das Religiões
História
Mitologia e folclore celeste
Sagas islandesas, Eddas, crônicas, material folclórico pós medieval

História Cultural das Religiões
Etnoastronomia
Ciências das Religiões
História
Cosmologia e visão de mundo
Sagas islandesas, Eddas
História Cultural das Religiões
Etnoastronomia

Ciências das Religiões
História
Bruxas, bruxaria, feitiçaria, magia, discurso contra práticas mágicas, discurso obre o paganismo, demonologia
Sagas islandesas, Eddas, crônicas, iconografia, grimórios medievais e renascentistas, fontes rúnicas

História Cultural das Religiões

Ciências das Religiões
História
Crenças religiosas, variação e circulação de crenças, performance ritual

Sagas islandesas, Eddas, crônicas, iconografia, fontes rúnicas
Mitologia Comparada
Estudos comparados
Arqueologia das Religiões
Ciências das Religiões
História
Simbolismo, ritos e crenças intereligiosas (contato entre escandinavos e não escandinavos)

Sagas islandesas, Eddas, fontes mitológicas e mitográficas euroasiáticas
História Comparada
História Cultural das Religiões

Ciências das Religiões
História
A mitologia como suporte para os estudos de Religião Nórdica Antiga: ideologia/fronteiras culturais

Eddas
Sagas lendárias
Folclore
História Cultural
Arqueologia pós-processual
Teoria Queer
Ciências das Religiões
História
Transmissão e recepção dos mitos nórdicos
Eddas
Sagas lendárias
Folclore
Mitologia Comparada
Folclorística
Teoria da recepção

História
Identidade social
Etnicidade
Sagas islandesas, crônicas, Eddas
História cultural
Estudos pós-coloniais e decoloniais

História
Letras
A representação do outro/alteridade
Sagas islandesas, crônicas, Eddas
História Comparada
História Cultural
Estudos culturais
Teoria das representações sociais

História
Letras
Gênero
História das Mulheres
Sagas islandesas, Eddas, crônicas
História cultural
Teorias de gênero
História das Mulheres

Letras

Construção da personagem literária

Sagas lendárias (Fornaldarsögur)
Teoria da Literatura
Letras

A questão do espaço e do tempo dentro da construção da narrativa

Sagas de família (Íslendingasögur)
Teoria da Literatura
Letras

A questão do narrador
Sagas islandesas em geral

Teoria da Literatura
Letras

A relação entre o oral e o escrito, performance e escrita

Poesia éddica e escáldica
Teorias da oralidade e performance
Letras

Magia e fantástico, personagens e paisagens
Sagas islandesas e Literatura Arturiana

Literatura Comparada
Letras

Recepção de temas nórdicos (História, Mitologia)

Literatura pós-medieval
Estética da recepção
Ciências da Cultura
Pós-Colonialismo.
História
Recepção de temas nórdicos (História, Mitologia)
Arte, ópera, cinema, teatro, música, internet, jogos, quadrinhos, televisão
História Cultural
Ensino de História


FONTES HISTÓRICAS, HISTORIOGRÁFICAS E SEMI-HISTÓRICAS

ANKSAR. Vita Anskarii auctore Rimerto (fonte germânica em latim, descrição de aspectos da sociedade nórdica durante a Era Viking)

ARI, o sábio. Íslendingabók (fonte em islandês)

BREMEN, Adão de. Gesta Hammaburgensis Ecclesiae Pontificum (descrição do paganismo nórdico, fonte germânica em latim)
Edição em inglês: tradução de F.J. Tschan. History of the Archbishops of Hamburg-Bremen, 2002.

DUDO. Gesta Normannorum (fonte normanda)

ETELVARDO. Chronicom Æthelweardi (fonte anglo-saxã em latim)

FLODOARDI. Annales (fonte em latim)

FONTES ÁRABES MEDIEVAIS
Edição em inglês: Ibn Fadlan and the Land of Darkness: Arab Travellers in the Far North (Penguin, 2012). Descrições de Fadlan e outros viajantes árabes no medievo sobre nórdicos.

GRAMATICUS, Saxo. Gesta Danorum (fonte escandinava em latim, uma das mais importantes do medievo)
Edição em espanhol: Historia Danesa, libros i-IX, tradução de Santiago Ibánêz Lluch, 2013.

JORDANES. Getica (De Getarum (Gothorum) Origine et Rebus Gestis)

JUMIÈGES, William of. Gesta Normannorum Ducum (fonte normanda em latim)
Edição em inglês: The Gesta Normannorum Ducum of William of Jumièges, Orderic Vitalis and Robert of Torigni, Clarendon Press, Oxford, 1995, tradução de Elisabeth M. C. Van Houts.

LAMGEBEK, J. Scriptores rerum Danicarum medii aevi (coletânea oitocentista de fontes medievais escandinavas)

MAGNUS, Olaus. Historia de gentibus septentrionalibus (fonte sueca em latim)
Edição em inglês: A Description of the Northern Peoples, 1998, tradução de P.G. Foote.

MERSEBURG, Thietmar of. Merseburgensis Episcopi Chronicon (fonte germânia em latim)
Edição em latim
Edição em inglês: WARNER, David A. (Trad.). Ottonian Germany: The Chronicon of Thietmar of Merseburg, Manchester UP, 2001

PORPHYROGENITUS, Constantine. De Administrando Imperio (fonte grega)

RIMBERT. Vita Rimberti (fonte germânica em latim)

THEODORICUS. Historia de antiquitate regum Norwagiensium (fonte escndinava em latim)

WIDUKIND. Res gestae saxonicae sive annalium libri três (fonte germânica em latim)
Edição em latim
Edição em inglês: BACHRACH, Bernard S. & BACHRACH, David S. (Trad.). Deeds of the Saxons, Catholic University Press, 2014.


Fontes anônimas:

Ágrip (af Noregskonunga sogum) (fonte em nórdico antigo)



Annála Ríoghachta Éireann (fonte irlandesa)

Annales Bertiani (fonte do período carolíngio)

Annales Cambriae (fonte galesa em latim)

Annales Fuldenses (fonte carolíngia em latim)

Annales regni Francorum (fonte carolíngia em latim)

Crônica anglo-saxã (fonte em anglo-saxão)

Encomium Emmae Reginae (Gesta Cnutonis Regis) (fonte normanda em latim)

Erikskrönikan (fonte em sueco antigo)
Edição em inglês: The Chronicle of Duke Erik: A Verse Epic from Medieval Sweden, 2012, tradução de Erik Carlquist, Peter C. Hogg, Eva Österberg

Flateyjarbók (fonte em islandês antigo)

Grágás (fonte em islandês antigo)
Edição em inglês: Laws of Early Iceland: Gragas I, 2007, tradução de Andrew Dennis e Peter Foote.

Gutasagan (fonte em gútnico antigo)

Historia Norwegiæ (fonte norueguesa em latim)

Konugs Skuggsjá (fonte em norueguês antigo)

Landnámabók (fonte em islandês antigo)

Liber Historiae Francorum (Gesta Francorum) (Fonte carolíngia)
Edição em inglês: The Rise of the Carolingians and the Liber historiae Francorum, Oxford: Clarendon Press, 1987, tradução de Richard Arthur Gerberding.

Morkinskinna (fonte em islandês antigo)
Edição em inglês: Morkinskinna: The Earliest Icelandic Chronicle of the Norwegian Kings (1030-1157). Ithaca: Cornell University Press, 2000, tradução de Theodore Murdock Andersson, e Kari Ellen Gade.

Norges gamle Love Indtil (fonte em islandês)

Povest´ Vremennykb (Narrativa dos anos passados, fonte russa medieval)
Edição em espanhol: "Relato de los Años pasados". Néstor. Edición, traducción, prólogo y notas de Ángel Luis Encinas Moral. Colección "Libros de los Malos Tiempos", nº 85, Miraguano Ediciones, Madrid, 2004.
Edição integral em português

Recueil des Actes des ducs de Normandie (fonte normanda)
Edição em francês: Recueil des actes des ducs de Normandie de 911 à 1066, Paris: Caron, 1961, tradução de Lucien Musset.

Västgötalagen (Fonte sueca em latim)



FONTES LITERÁRIAS





FONTES DA MITOLOGIA NÓRDICA

Sobre edições das Eddas, poemas escáldicos, sagas lendárias e fonte iconográficas, ver: Uma introdução às fontes da Mitologia Nórdica. 




LEIA TAMBÉM:


Recomendamos aos interessados que entrem em contato prévio com o professor Johnni Langer, com o intuito de definir o tema, fontes e bibliografia para o projeto a ser inscrito na seleção.




Vídeo





terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

Nove erros sobre a Religião Nórdica da Era Viking



Nove erros sobre a Religião Nórdica da Era Viking



Prof. Dr.Johnni Langer (UFPB/NEVE)

Johnnilanger@yahoo.com.br


 Um dos temas mais populares sobre o mundo nórdico medieval é a respeito dos ritos e crenças pré-cristãs, mas infelizmente nos dias de hoje, também constitui um dos mais repletos de fantasias, anacronismos e interpretações equivocadas. Em parte isso se deve à intensa proliferação de matérias jornalísticas, esotéricas e mídias como o cinema e televisão, além da internet, que facilitam a propagação de estereótipos ou informações errôneas. Nossa intenção neste pequeno ensaio é desconstruir alguns destes equívocos e apontar alguns rumos das mais recentes investigações acadêmicas na área da religião nórdica.



Fotografia de culto do Asatru na Islândia.


1.      O Asatru é a religião dos nórdicos antigos

Uma idéia recentemente atualizada com a série do Netflix, Ragnarok. O Asatru é o nome moderno adotado de uma das variadas manifestações do neopaganismo, não sendo uma reconstituição fidedigna da religião nórdica que se praticava antes do cristianismo. Em primeiro lugar, não existia nem um termo na língua nórdica antiga para religião (provocando muitos debates); em segundo, utilizamos o termo religião em singular em um ponto de vista interpretativo usual, porém, termos que ter consciência de que não existia uniformidade e coesão nas crenças e práticas da Era Viking, havendo inúmeras variações a nível territorial, regional e social. Não existiam qualquer tipo de forma institucional, nem livro sagrado, corpus sacerdotal regular ou profissional. Não sobreviveram ritos, orações ou práticas detalhadas. A maior parte do que os neopagãos praticam hoje em dia, em parte se deve a interpretações pessoais, em parte a imaginação. Muitos acabam seguindo o modelo de outras religiões (muitas vezes, de forma inconsciente), como as várias formas do monoteísmo abraâmico. Isso é claro não invalida a legitimidade de suas crenças (como de qualquer outra manifestação religiosa atual), mas de um ponto de vista histórico é necessário diferenciar os contextos.


Estátua de Loki, Herman Freund, 1822. Ny Carslberg Glyptotek, Copenhague. Foto do autor.


2.      Loki e os gigantes eram cultuados na Era Viking

Mito não é a mesma coisa que rito. Um personagem constar nas narrativas míticas não significa que ele tinha algum tipo de importância ritual ou na prática cotidiana. Segundo as pesquisas toponímicas de Stefan Brink, entidades como Loki, Heimdall, Bragi e Idunna não ocorrem em registro toponímicos, sendo uma evidência de ausência de cultos. Mas ao contrário, deuses poucos mencionados nas fontes literárias, como Ullr, possuem fartos registros toponímicos (mostrando a dicotomia entre mito e rito, além de outras questões envolvendo as fontes escritas, como referenciais sociais).


Cena de ritual, Série Vikings.


3.      Os sacerdotes nórdicos eram sinistros e macabros

Em primeiro lugar, não existem evidências de sacerdotes profissionais e regulares no mundo nórdico, levando os especialistas a preferirem o termo “líderes de culto”. O cinema e a televisão popularizaram a visão de sacerdotes múltiplos, institucionalizados e muitas vezes até com hierarquia, sendo caracterizados como carecas, forte maquiagem e comportamento sinistro (a exemplo da série Vikings). Outras produções cinematográficas reforçam a visão cristocêntrica de sacerdotes nórdicos, tornando as crenças pré-cristãs como algo macabro e mesmo satânico.


Reconstituição do templo de Uppåkra, suécia. foto do autor.


4.      Não existiam templos nórdicos pré-cristãos

Um motivo de intenso debate na academia décadas atrás, sendo que a maioria dos pesquisadores acreditavam que as práticas religiosas da Era Viking seguiam um modelo aos moldes dos germanos antigos: foram praticadas ao ar livre, na paisagem. Mas recentes descobertas (como o sítio de Uppåkra na Suécia) vem demonstrando que existiam edificações fechadas construídas especialmente para práticas cultuais.


Thor, ilustração de Lorenz Frølich, 1895

Thor, estátua de Carl Johan Bonnesen, Cervejaria Carlsberg, Copenhague. Foto do autor (a suástica localiza-se nas rodas).



5.      A suástica é um símbolo do deus Thor

Uma ideia ainda muito consolidada na academia. Desde o século XIX, com a popularização artística deste deus nórdico, seus estudos e análises se intensificaram, do mesmo jeito que os estudos do símbolo euroasiático mais pesquisado durante o Oitocentos: a suástica. Na área nórdica, não existe nenhuma fonte literária medieval sobre este símbolo, levando os pesquisadores a procurarem materiais de outra época, como os grimórios islandeses do Renascimento, onde a suástica é denominada de “martelo de Thor”. Isso levou a alguns acadêmicos da primeira metade do século XIX a acreditar que a suástica tinha a mesma conotação durante a Era Viking, a exemplo de Finnur Magnússon no livro Runamo og runerne (Kjobenhavn: Trykt i Bianco Lunos Bogtrykkeri, 1841, p. 161). Na década seguinte, os pesquisadores de bracteatas supostamente identificaram o deus Thor associado com suásticas, mas na realidade, eram representações do deus Odin (Bente Magnus, Men, gods and masks in Nordic Iron Age Art, Köln: Buchhandlung Walther König, 2005, p. 54). Os artistas passam a conhecer estas pesquisas e começam a produzir obras mesclando a deidade com o símbolo, a exemplo da pintura Tors strid med jättarna de Mårten Eskil Winge (1872), várias ilustrações de Lorenz Frølich (1895) e a escultura de Carl Johan Bonnesen para a cervejaria Carlsberg, realizada em 1901 (ainda pode ser vislumbrada no alto deste edifício em Copenhague). No século XX diversos acadêmicos continuaram essa associação, a exemplo de Hilda Davidson.

Recentemente fizemos um levantamento e análise iconográfica de vários símbolos nórdicos, presente no final da Antiguidade até a Idade Média Central: bracteatas, pedras rúnicas, tapeçarias, monumentos anglo-daneses, igrejas, cruzes e concluímos que não existem evidências objetivas desta associação. Todas as manifestações visuais da suástica no contexto nórdico até o momento da cristianização da Escandinávia estavam vinculadas unicamente ao deus Odin. Para terminar, vários sites brasileiros estão afirmando que o termo nórdico para suástica é fylfot, mas este é anglo-saxão. O termo em nórdico antigo não é conhecido.


Fotografia de tatuagem, internet.


6.      O Ægishjálmur é viking

Um dos mais populares e conhecidos símbolos nórdicos na atualidade é o Ægishjálmur, muito utilizado para tatuagens entre os jovens, que acreditam que ele seja um símbolo viking. Já escrevemos outro ensaio desmistificando essa idéia (pois ele é de origem tardo-medieval) e outra, a de que ele teria algum vínculo com símbolos das religiões afro-brasileiras: Símbolos vikings e umbandistas: cópia ou coincidência? 


Mandala astrológica rúnica, internet.


7.      Os vikings conheciam a astrologia, o zodíaco e os signos

Já demonstrei em um estudo anterior que não existem evidências históricas de que os nórdicos da Era Viking conheciam qualquer tipo de concepção astrológica ou o conceito da eclíptica (O zodíaco viking: reflexões sobre etnoastronomia e mitologia escandinava).

 Dezenas de sites atualmente proliferam coisas como astrologia rúnica, o que é um grande engodo. O péssimo livro esotérico populista de Mirella Faur (Mistérios nórdicos) associa as runas com astros que não eram conhecidos antes do século XIX, como os asteroides Ceres e Vesta e os planetas Urano, Netuno e Plutão (p. 143, 151, 164).


Detalhe da pedra gotlandesa de Stenkyrka Lillbjärs III, internet.


8.      O valknut é uma fraude



Há alguns anos um ensaio na internet brasileira causou certa comoção, ao questionar a etimologia e o significado de um dos símbolos nórdicos mais populares, o valknut (O “Valknútr” não existe). A inexistência de um nome original não invalida o termo usado (como suástica, que é de origem hindu) como sendo inútil, ele apenas é uma terminologia limitada. A matéria tem o mérito de questionar o uso geral do significado simbólico – assim como outros símbolos (a suástica, o triskelion, a espiral) só podemos realizar algum tipo de interpretação em alguns contextos iconográficos (como as pedras gotlandesas). Um valknut em um anel, em um pente, em um vestido ou em outro objeto móvel, é um ornamento ou um símbolo? Não sabemos. Qual o seu significado nestes objetos? Não sabemos. Porque na narrativa de Hrungnir (a única fonte medieval a mencionar nominalmente algum tipo de símbolo gráfico), Hrungnis hjarta, aparece relacionado a Thor e não a Odin? Isso é polêmico. Eu acredito que seja devido a variações nas crenças. Assim como a imagem celeste de uma carruagem (identificada a constelação da Ursa Maior) foi tanto vinculada a Thor quanto a Odin na Islândia medieval, creio que com o valknut ocorreu o mesmo (mas não com a suástica, como vimos anteriormente).

A matéria mencionada alude que o valknute ornamental (também conhecido como sankthanskors, o nó quadrado norueguês ) não tem qualquer tipo de vínculo com a morte, mas na tapeçaria de Oseberg (em que funeral, morte, sacrifícios humanos e Yggdrasill são representadas), este símbolo também aparece, ao lado de suásticas. Não podemos ser categóricos e afirmar que TODOS os objetos e monumentos em que o valknut foi representado tem algum significado de morte, mas em diversas pedras gotlandesas (e não apenas em uma, a de Hammars I, como a matéria alude que seria uma “exceção”) esse significado é bem óbvio: Stenkyrka Lillbjärs I, Stenkyrka Lillbjärs III, Lärbro Tängelgårda I, Buttle Änge V, Stenkyrka Smiss I.

O estudo dos simbolismos religiosos na Era Viking ainda é muito escasso na academia, ainda depende de muitas pesquisas. A conexão entre vários símbolos é presente em diversos monumentos, como a suástica, valknut, sankthanskors, espiral, triskelion e o triplo corno – muitas vezes aparecem em conjunto, todos remetendo a vínculos com Odin. O mais bem documentado e brilhante estudo sobre o valknut até o momento (The Valknut: Heart of the Slain?) conclui que em alguns monumentos (como os aludidos acima) o dito símbolo teve significados relacionados com a morte, referencial com o qual concordamos.


Cena de ioga rúnica, youtube.


9 – Stadhagaldr: A ioga rúnica

Uma das mais recentes tendências em se aplicar um referencial esotérico ao mundo nórdico pré-cristão é o Stadhagaldr: uma série de posturas baseadas nas runas, muito popularizado no Brasil com a obra As moradas secretas de Odin (a exemplo das obras de Mirella Faur, não recomendamos). Não existe nenhum tipo de evidência histórica sobre esse tema, uma variante contemporânea da tendência em fundir tradições totalmente diferentes em uma nova prática (crenças asiáticas com ocidentais).



Bibliografia


BRINK, Stefan. How uniform was the Old Norse Religion?  In: QUINN, Judy et al (ed.). Learning and understanding in the Old Norse World. Brepols, 2017, p. 105-136.

LANGER, Johnni. Religião. In: LANGER, Johnni (Ed.). Dicionário de História e Cultura da Era Viking. São Paulo: Hedra, 2017.

LANGER, Johnni. A Religião Nórdica Antiga: conceitos e métodos de pesquisa (The Old Norse Religion: concepts and methods of research), Rever: Revista de Estudos da Religião, PUC-SP, 16(2), 2016.




SUNDQVIST, Olof. Cult leaders, rulers and religion. In: BRINK, Stefan (ed.). The viking world. New York: Routledge, 2012, p. 223-226.