O grupo interinstitucional NEVE (NÚCLEO DE ESTUDOS VIKINGS E ESCANDINAVOS, criado em 2010) tem como principal objetivo o estudo e a divulgação da História e cultura da Escandinávia Medieval, em especial da Era Viking, por meio de reuniões, organização de eventos, publicações e divulgações em periódicos e internet. Parceiro internacional do Museet Ribes Vikinger (Dianamarca), Lofotr Viking Museum (Noruega), The Northern Women’s Art Collaborative (Universidade de Brown, EUA), Reception Research Group (Universidad de Alcalá) e no Brasil, da ABREM (Associação Brasileira de Estudos Medievais) e PPGCR-UFPB. Registrado no DGP-CNPQ. Contato: neveufpb@yahoo.com.br

domingo, 12 de setembro de 2021

Conferência sobre a representação dos Vikings nas artes

 


O professor Johnni Langer (NEVE) irá realizar a conferência de abertura do IV Simpósio de Estudos Medievais (LETAMIS-UFES): Herói com chifres - a invenção visual do Viking pelo Romantismo. A conferência abordará o surgimento das primeiras imagens e representações do Viking, durante os anos 1820. Em especial, será abordado o surgimento das representações vinculando o nórdico com o elmo de chifres, a sua imagem mais popular no imaginário midiático até hoje. 

A conferência será realizada no dia 22 de setembro, quarta feira, às 14h. As inscrições podem ser realizadas pelo site do evento, clicando aqui.





quarta-feira, 1 de setembro de 2021

Estreia nova série do NEVE no Youtube - Cotidiano e História

 



A nova série do NEVE no Youtube, Cotidiano e História, acaba de estrear. A série explora diversos aspectos do cotidiano nórdico na Era Viking, enfatizando aspectos materiais e sociais: alimentação, indumentárias, hábitos de higiene, medicina, etc.

A série é produzida e apresentada pela professora Luciana de Campos, que possui mestrado em História pela UNESP e doutorado em Letras pela UFPB.

O primeiro episódio da série trata dos pães na Era Viking, mesclando história da alimentação com arqueologia experimental.

O primeiro episódio pode ser acessado clicando aqui.




quarta-feira, 11 de agosto de 2021

Lançamento: O mito da mulher guerreira

 



O NEVE acaba de publicar mais um livro, desta vez analisando as narrativas nórdicas envolvendo mulheres belicosas: O mito da mulher guerreira: uma análise da saga de Hervör. Escrito pela pesquisadora Luciana de Campos, o livro está disponível gratuitamente na conta do AcademiaEdu do NEVE, clique aqui.

Trecho do prefácio: A narrativa de uma moça, ainda solteira, que vai em busca de uma espada na tumba de seu pai falecido, encanta os artistas europeus desde o século XVIII. Ela remete a um topos literário muito antigo, relacionado com a mulher guerreira, aquela que subverte todos os padrões de gênero e se insere em um mundo masculino. Os motivos de seu encanto e fascínio pelas artes e literatura é complexo. Iniciando-se com as amazonas gregas, ela se multiplica pelas mais variadas personagens, ultrapassando o medievo e atingindo a América e o mundo moderno. A mulher guerreira encanta, mas também atemoriza. O recente sucesso televisivo de Lagertha demonstra todo o poder imaginário que este modelo ainda possui em nossos tempos, instaurando um verdadeiro modismo em moças tentando imitar sua congênere ficcional.


domingo, 8 de agosto de 2021

Os berserkir realmente existiram?

 


BERSERKIR E ÚLFHEĐNAR


Pablo Gomes de Miranda (NEVE)

Doutor em ciências das Religiões pela UFPB

pgdemiranda@gmail.com



Guerreiros furiosos que lutam com pouca ou nenhuma proteção? Soldados dedicados a uma vida de luta e agraciados com a magia do deus Óðinn? O que é história, o que é lenda nos relatos sobre o guerreiro Berserkr? O nome Berserkr não nos diz muito, é possível que o prefixo Ber- se refira a Urso, que unido ao termo -serkr nos entrega o significado de Camisa de Urso. Assim, o Berserkr seria algum tipo de guerreiro antigo dedicado a uma vida de soldado profissional que seria empregado por antigos reis ou chefias poderosas e identificado pelo uso de peles em campo de batalha. Essa explicação encontra lastro na contraparte lupina desses guerreiros, o Úlfhéðinn, cujo o nome significa Capa de Lobo. Contudo, o prefixo Ber- poderia significar ainda ausência de proteção, um nome que poderia significar “sem camisa”, no fim das contas uma possibilidade tão misteriosa quanto a anterior (PRICE, 2019, p. 302).

Eles eram personagens muito famosos da literatura escandinava medieval e conquistaram o espaço principalmente como antagonistas nas sagas fantásticas, impondo dificuldades a serem vencidas pelos heróis, geralmente na forma de duelos. Exceções podem ser feitas aqui a Bödvar Bjarki, o campeão do rei Hrólfr de Lejre, que enquanto ficava desfalecido em um transe, um medonho urso assumia o seu lugar no campo de batalha, e Sigmundr e Sinfjǫtli que se transformam em lobos ao se cobrirem com peles mágicas que só podem ser retiradas após dez dias nessa condição (MIRANDA. 2014, pp. 68 e 69). Todavia, para termos um foco maior nas fontes que se concentram nas possibilidades reais desses guerreiros serem algo mais que lendários, vamos voltar os nossos olhares para um famoso conflito no sul da Noruega. 

Navegando para o sul, nos mares gelados da velha Jaðarr, o rei Haraldr Cabelos-Belos e os seus homens se preparavam para aquela que seria uma das maiores batalhas navais descritas nas sagas islandesas, a batalha de Hafrsfjörðr, próxima a cidade norueguesa de Stavanger (onde hoje se encontra um marco de comemoração a esse conflito). Essa batalha marcou o fim de uma série de conflitos que empoderou o jovem rei Haraldr na posição de chefe do nascente reino da Noruega. Lutando com o apoio de uma série de aliados que preferiram confiar em sua visão política e capacidade marcial, ele assegurou o controle após destronar uma associação de pequenos reis distritais, consolidando no século IX a sua autoridade sobre as regiões do sul da Noruega.

A Haralds saga Hárfagra, documento biográfico de base oral, provavelmente formulado pelo cronista islandês Snorri Sturlusson (1179 – 1241) séculos depois e presente em um compilado de sagas sobre os reis noruegueses, a Heimskringla, não nos descreve o conflito em grandes detalhes. Contudo, para a nossa sorte, os documentos escritos preservaram as palavras do escaldo, o poeta nórdico, Þórbjörn hornklófi que pode ter pessoalmente testemunhado e composto o poema laudatório Haraldskvæði em homenagem ao rei Haraldr Cabelos-Belos, e são aqui que encontramos as menções mais antigas sobre esses guerreiros especiais que chamamos de Berserkir (no singular Berserkr) e outro grupo também muito especial de guerreiros, os Úlfheðnar (no singular Úlfheðinn).

“Eles reúnem os homens/e brancos escudos,/lanças ocidentais/e espadas francas./Urraram os berserkir;/era o momento da batalha;/uivavam os úlfheðnar/e agitavam as armas”. Outros versos do mesmo poema são encontrados em outro compilado, também do século XIII, a Fagrskinna: “Do equipamento berserkir lhe pergunto,/provador do sangue do mar:/qual provisão é entregue,/a eles que avançam para a batalha,/os homens valentes?” e “Úlfheðnar são chamados/em combate eles/carregam escudos ensanguentados;/avermelham as lanças/quando entram na batalha;/lá eles atuam unidos./Apenas de homens corajosos/eu acredito, que sob a confiança/do senhor estavam esses veteranos,/os destruidores de escudo” (Haraldskvæði, 8, 12 e 13).

Os versos do escaldo parecem ter sido bastante populares, já que as sagas do século XIII, em especial os relatos da Egils saga Skallagrímssonar e da Vatnsdœla saga, onde os Berserkir e os Úlfheðnar esses guerreiros estão em posições de prestígio, nas bordas do navio, mais vulneráveis e onde, nas batalhas navais escandinavas, os conflitos eram mais fáceis de acontecer. Na primeira saga, é dito que do navio do rei, todos aqueles que ocupavam os lugares além mastro, onde a batalha havia sido mais severa, todos estavam feridos, menos os Berserkir a quem o ferro não machucava. Na segunda saga, ficamos sabendo que os Úlfheðnar vestem peles e são eles os Berserkir do rei Haraldr. 

Não devemos acreditar integralmente nos relatos da Batalha de Hafrsfjörðr como nos é contado nas sagas, tampouco sabemos se houve uma batalha decisiva pela tomada política da Noruega, mas é um evento bastante popular nas sagas islandesas, pois alguns dos personagens que estão na gênese das famílias de colonos noruegueses que migraram para a Islândia são mencionados como participantes dessa batalha e como homens de prestígio na corte do rei Haraldr Cabelos-Belos. 

Os Berserkir vão ser personagens muito populares nas sagas islandesas, sendo descritos como arruaceiros, invasores de granjas, e uma constante ameaça aos colonos, surgindo em bandos para tomar as terras, esposas e filhas dos colonos. Contudo algumas dessas menções nos dão um panorama da existência desses guerreiros especiais já que mostram uma concordância com os versos do poema Haraldskvæði.

A descrição mais vívida e que os conectam ao deus Óðinn surge na Ynglinga saga, presente também no Heimskringla, aquela compilação que falamos anteriormente e que contém o poema de Þórbjörn hornklófi. Nesta saga em específico, quando nos são faladas as qualidades e poderes de Óðinn, segue a passagem: 

“Porém, quando ele ia para a guerra, aparecia com aspecto terrível aos seus inimigos; isso acontecia porque ele conhecia as habilidades que trocam a aparência e a forma como ele bem desejava. Outra razão era que ele falava de forma inteligente e polida, sendo ouvido em tudo, pois achavam isso verdadeiro; ele dizia tudo em rimas, aquilo que agora é recitado, de poesia é chamado; ele e seus sacerdotes são conhecidos como artesões de canções, pois esse saber começou com eles nas terras do Norte. Óðinn era conhecido por tornar seus inimigos cegos, surdos e medrosos em batalha. As armas inimigas apenas feriam pouco mais que varetas, seus próprios homens iam sem armadura e agiam como cachorros e lobos, mordendo seus escudos; eram fortes como ursos e touros. Eles matavam pessoas e nenhum fogo ou aço os afetava; isso é chamado berserksgangr” (Ynglinga saga, 6). 

Curiosamente ele é um deus descrito como tendo o domínio sobre muitos campos mentais, e seus interesses vão da feitiçaria e magia, ao domínio das palavras e da poesia. O seu nome está relacionado a expressão Óðr que quer dizer louco ou frenético; e quando conectado a palavra maðr, pode ser traduzido como homem louco e ainda furioso, violento, ardente. Contudo, pode ainda significar mente, sensação; canção, poesia; sendo óðarsmiðr,um sinônimo para poeta. Por outro lado, óðr hundr é como se refere a um cachorro louco. Ainda mais, a expressão ainda pode significar “mente, espírito, alma ou sentido” em referência ao mito da criação dos homens onde os deuses conferem önd, óðr e læ, espírito, mente e calor.

É possível que haja uma ligação espiritual entre o deus Óðinn e esses guerreiros muito especiais, contudo nossas informações sobre essas conexões são extremamente limitadas às conjecturas que acabamos de apontar. Também são limitados as possíveis representações e informações desses guerreiros antes da Era Viking (793-1066): é possível que entre os guerreiros góticos representados na coluna de Trajano (SPEIDEL, 2004, pp. 34-36), aqueles que, entre eles, utilizam peles de ursos e lobos sob as suas cabeças, não sejam nenhum deles Vexilarii ou porta estandartes de nenhuma forma. Material arqueológico das áreas germânicas nos séculos posteriores também apresentam farto material do que parecem ser homens utilizando peles de animais em contextos ritualísticos, como as lâminas de prata de Gutenstein e a de Obrigheim, além da placa do elmo de Torslunda (HEDEAGER, 2011, p. 95; PRICE, 2019, p. 308; SPEIDEL, 2004, pp. 10-40). Mas essas são, novamente, apenas conjecturas já que as fontes primárias sobre os antigos germanos não mencionam guerreiros usando peles de ursos e lobos. 

 

Imagens: representações da bainha de Gutenstein e Obrigheim, placa do elmo de Torsulnda.


Algumas dessas pistas não podem ser interpretadas literalmente: os escandinavos escolhiam certos animais como referências poéticas para a batalha, como os corvos, as águias e, claro, os lobos. Por exemplo, na Batalha de Maldon, poema em Inglês Antigo composto antes do século XI, a referência aos invasores escandinavos como lobos da matança, wælwulfas (linha 96), deve ser entendido como uma metáfora, dentro do contexto poético, desses vikings que invadiam a Inglaterra, e, aqui, lutavam contra o earl Byrhtnoth e seus homens. Contudo, se continuarmos ainda buscando conexões com o mundo antigo, devemos nos lembrar dos Velites, soldados romanos especializados em armar emboscadas. Excetuando o escudo e seus capacetes, os Velites utilizavam dardos e nenhuma proteção, pois eram rapazes recrutados entre as camadas pobres. Sabemos que alguns deles cobriam seus capacetes com proteções  

Se eles foram reais e se representavam fortes conexões entre os deuses, os homens e as suas atividades marciais, é possível que esses guerreiros também tenham incorporado o comportamento desses animais na forma como lutavam. Diz na saga do rei Haraldr Cabelos-Belos, que quando ele decidiu tripular o seu próprio navio conforme lhe agradava, acabou colocando a sua guarda pessoal de Berserkir em um lugar chamado Rausn, ao qual já comentamos ser de grande prestígio. E que apenas a eles eram confiados os espaços na sua companhia pessoal. 

Talvez esses guerreiros ursos fossem usados para quebrar as fileiras de escudos quando os inimigos abordassem o navio, agindo como a tropa de choque pessoal do rei. Se for esse o caso, devemos lembrar que no poema de Þórbjörn hornklófi esses guerreiros lobos agitavam suas armas, que sabemos que eram as lanças ensanguentadas (elas próprias descritas como um instrumento de sacrifício ao deus Óðinn), talvez lutando coordenadamente como uma alcateia.

Muitas são as menções desses guerreiros em fontes e lendas tardias, como já falamos, mas poucas são as pistas sobre os verdadeiros costumes desses homens, e ainda que seja tentador especular mais sobre esses homens, é mais seguro nos mantermos fieis aos versos do escaldo que nos brinda com esses homens que urravam e gritavam no combate enquanto os conveses das embarcações eram manchados de sangue em Hafrsfjörðr.


Referências:

HEDEAGER, Lotte. Iron Age Myth and Materiality – an archaeology of Scandinavia ad 400-1200. Abingdon: Routledge, 2011.

MIRANDA, Pablo Gomes de. Berserkir. In: LANGER, Johnni (org.). Dicionário de Mitologia Nórdica – símbolos, mitos e ritos. São Paulo: Hedra, 2014.

PRICE, Neil. The Viking Way: magic and mind in late Iron Age Scandinavia. Oxford: Oxbow books, 2019.

SPEIDEL, Michael P. Ancient Germanic Warriors: warrior styles from Trajan’s Column to Icelandic sagas. Nova York: Routledge, 2004.





terça-feira, 3 de agosto de 2021

"MULHER" COM ARMAMENTO? ESCLARECIMENTO DO NEVE SOBRE O TÚMULO FINLANDÊS DE SUONTAKA

 


Várias traduções e matérias na internet vem propagando um estudo que foi publicado recentemente pelo European Journal of Archaeology e que vem causando muita polêmica: A Woman with a Sword? – Weapon Grave at Suontaka Vesitorninmäki, Finland. A sepultura foi descoberta em 1968 junto a armas e broches, o que levou alguns a acreditarem que teria sido o enterro de uma mulher poderosa no início da Finlândia medieval. Outros questionam o enterro original junto com a  espada e interpretam como sendo um enterro duplo (o armamento foi inserido posteriormente). 

Agora, novas análises do contexto, solo e DNA levaram novos pesquisadores a apresentarem outra análise: o sepultamento pertenceu a uma pessoa com Síndrome de Klinefelter (um tipo de anomalia cromossômica, onde o indivíduo possui três cromossomos sexuais, XXY, ele é do sexo masculino, porém seus órgãos sexuais são pouco desenvolvidos e não produzem espermatozoides e suas mamas podem apresentar um grande crescimento). O estudo apresenta também o contexto que o indivíduo enterrado foi de uma pessoa muito respeitada e que possivelmente sua identidade de gênero pode não ter sido binária (ou seja, considerado necessariamente homem ou mulher). 

Os autores afirmam em sua conclusão que mesmo no início da Finlândia medieval, muitas vezes considerada uma sociedade puramente masculina e guerreira, pode ter ocorrido indivíduos que não se encaixavam em um modelo de gênero binário. Eles também podem ter sido respeitados e considerados muito importantes, e suas identidades de gênero podem ser lembradas no conteúdo de seus sepultamentos. 

Este estudo vem sendo interpretado e divulgado de forma um tanto equivocada, o que levou uma das autoras (Ulla Moilanen) a postar em sua conta no Facebook: "NÃO estamos dizendo que o indivíduo era hermafrodita, homossexual ou mesmo intersexual. Estamos dizendo que sexo é diferente de gênero. Independentemente da aparência anatômica, essa pessoa (assim como qualquer outra pessoa que viveu em qualquer época) poderia ter se identificado em qualquer lugar no espectro de gênero. No entanto, as identidades de gênero podem não ter sido escolhas pessoais como hoje, mas criadas pela sociedade de formas complexas. A combinação do simbolismo feminino e masculino nos túmulos da Idade Média (e não apenas deste período) podem sugerir que precisamos reconsiderar como o gênero era compreendido e construído nas comunidades medievais, pois parece que pode ter havido casos em que os ideais ´tradicionais´ não eram seguidos". 

Podemos concluir que as identidades de gênero são complexas e, mesmo em sociedades medievais onde sempre se acreditou que os papéis sexuais eram idênticos aos de gênero, na prática apresentam uma grande fluidez que merece atenção e ainda, precisa ser mais estudada, sem análises apressadas. 

O NEVE realizará um vídeo sobre o tema em seu canal no Youtube, a ser divulgado em breve.


sábado, 31 de julho de 2021

Palestra sobre Vikings na UERJ



O professor Johnni Langer (NEVE) estará realizando a conferência de abertura do IV Seminário de Estudos Medievais do PEM-UERJ, no dia 16 de agosto, segunda, às 9h30m. A conferência abordará alguns dos principais estereótipos relacionados com os Vikings e a Idade Média, criados pela arte e disseminados na cultura em geral durante o século 19 e que ainda estão presentes em nossa sociedade contemporânea.

As inscrições para ouvintes podem ser realizadas aqui. 


A programação completa do evento e informações podem ser obtidas pelo blog do PEM-UERJ.














 

sábado, 24 de julho de 2021

Novo livro sobre Mitologia Nórdica é publicado no Brasil


Lançamento - Ragnarök: desvendando o apocalipse nórdico, de Angela Albuquerque e Leandro Vilar (membros do NEVE). João pessoa: Rubayat Edições, 2021. ISBN: 979854151453. Ilustração da capa de Filipe Teixeira Machado (@runar.hall), prefácio mitográfico de Johnni Langer (NEVE). 

Vendas em formato eBook Kindle pela Amazon.

Síntese do livro - Ragnarök: o apocalipse nórdico trata-se de um estudo comparado nos campos das Ciências da Religião e da Mitologia, nos quais analisamos fontes literárias e da cultura material, entre os séculos X e XIII, no intuito de apresentar várias reflexões e interpretações sobre o mito do Ragnarök, conhecido como o “apocalipse nórdico”, por abordar uma guerra entre deuses e gigantes e a destruição do mundo. Acontecimento bastante popular, atualmente, devido aos seus novos sentidos apresentados em filmes, séries, livros e jogos. Sendo assim, o livro procurou enfatizar em seus três capítulos o significado deste termo, as fontes em que pode ser lido, sua comparação com o Apocalipse bíblico, os conceitos de apocalíptico e escatológico, as influências cristãs na literatura nórdica medieval, entre outros temas abordados, de forma a apresentar as pessoas leitoras uma melhor percepção e compreensão sobre esse mito.

quinta-feira, 22 de julho de 2021

Live sobre Mitologia Nórdica no Youtube

 


O canal Fantasticursos vai apresentar a live: Mitologia Nórdica: ontem e hoje, contando com a presença de Johnni Langer (NEVE), pesquisador da área a 20 anos, com publicações nacionais e internacionais (incluindo Dinamarca e Suécia). Marque o lembrete no canal.

A live será no dia 28 de julho, quarta, às 20 horas

Pintura do cartaz: Åsgårdsreien (A Cavalgada de Asgard, Peter Arbo, 1872).
Foto menor: escultura de Odin, Landesmuseum Hannover, Alemanha, realizada por Friedrich Wilhelm Engelhard, 1901.

terça-feira, 22 de junho de 2021

NEVE publica novo estudo sobre Vikings e Religião Nórdica Antiga na arte


 

Um novo estudo sobre as representações dos Vikings e da Religião Nórdica Antiga acaba de ser publicada na Revista de História da Arte e da Cultura (UNICAMP). O artigo investiga o tema na pintura “Nordisk offerscene fra den Odinske periode” (Cena sacrificial nórdica do período odínico, 1831) realizada pelo dinamarquês J.L. Lund e foi escrito pelo historiador Johnni Langer (NEVE). O trabalho pode ser consultado neste link.

Resumo: O  presente  artigo  analisa  a  obra Nordisk  offerscene  fra  den  Odinske  periode (Cena  sacrificial  nórdica  do período odínico) do pintor dinamarquês Johan Ludvig Gebhard Lund (1777-1867), executada em 1831, tendo como tema a religião nórdica antiga e os Vikings. Empregamos como teorias a schematade Ernest Gombrich e estudos de recepção de Margaret Clunies Ross. Nossa principal perspectiva é a de que a obra de Lund esteve relacionada tanto ao romantismo nacionalista dinamarquês quanto a   uma   perspectiva   de   história   e   arte   onde   as   antigas   formas   religiosas   e   as   representações idealizadas  dos  Vikings  ocupavam  um  papel  primordial  para  a  formação  de  identidades  sociais  e culturais de sua época.

Palavras-chave: J.  L.  Lund.  Mitos  nórdicos  nas  artes.  Vikings  na  arte  romântica. História  da  arte. Arte do século 19.

Acknowledgements: I am grateful to Anna Schram Vejlby (Fuglsang Kunstmuseum) for reading the original text and sending her valuable suggestions; Lise Præstgaard Andersen (University of Southern Denmark), Rikke Lyngsø Christensen (Royal Danish Library), Thomas Lederballe (Statens Museum for Kunst), Camilla Cadell (Det Kongelige Akademi), Per Larsson (Kulturen Museum), Benedikte Brincker (University of Copenhagen), Rune Finseth (Statens Museum for Kunst); Karen Bek-Pedersen (University of Aarhus), William Robert Rix (University of Copenhagen), Nora Hansson (University of Uppsala) and Martin Brandt Djupdræt (Den Gamle By) for sending information and bibliographies; Vitor Menini, Victor Hugo Sampaio and Pablo Gomes de Miranda for revising the text. 

 

 

segunda-feira, 21 de junho de 2021

O deus Loki é tema de novo vídeo do NEVE no Youtube

 

A série NEVE responde inicia uma nova fase em seu canal no Youtube, na qual abordará temas da Mitologia Nórdica. O primeiro vídeo desta série analisa as diversas facetas do deus Loki nas fontes medievais e também as suas ressignificações pela arte moderna: Loki foi mesmo satânico e maléfico? O vídeo é apresentado pela professora Luciana de Campos (NEVE) e pode ser acessado clicando aqui.

quinta-feira, 10 de junho de 2021

Chamada para dossiê: Vikings e Ensino de História

 


Chamada para dossiê: Vikings, Escandinávia Medieval e Ensino de História, Scandia Journal of Medieval Norse Studies 5, 2022. Editores: Leandro Vilar Oliveira (NEVE), vilarleandro@hotmail.com, e Pablo Gomes de Miranda (NEVE), pgdemiranda@gmail.com  

Com as mudanças implementadas pela Base Nacional Curricular Comum (BNCC), o ensino de história medieval no Brasil contempla uma abordagem pontual e superficial que se limitam ao delineamento do feudalismo, a fragmentação do poder político, o processo de cristianização, o desenvolvimento do comércio e a mulher na Idade Média, entre outros assuntos, não contemplando mudanças que encontrem correspondência nas atuais discussões historiográficas que propõem uma outra Idade Média que não obscura e não limitada as realidades nacionais dos países da Europa Central (LIMA, 2019).  

Contudo, nos últimos anos surgiram estudos sobre atividades escolares envolvendo a temática da Escandinávia medieval, mostrando que é possível inserir a história dos “vikings”, não apenas como uma possibilidade de diálogo com os eixos e temas propostos pela BNCC, mas também expandindo o diálogo com uma Idade Média sobretudo plural: exemplos recentes incluem o rompimento com os estereótipos históricos como a figura do Bárbaro (LANGER, 2002; PONCE, 2016) e a inserção fora do eixo eurocêntrico (MONCRIEFFE, 2020). Talvez um dos tópicos que melhor exemplifique a mobilidade dos homens na Idade Média e o contato dos povos nórdicos com outras territorialidades, a colônia da Vinlândia, raramente consta em nossos livros didáticos, e que apesar de sua brevidade, poderia servir como uma reflexão em sala de aula sobre o contato entre povos de culturas tão distintas.  

Pensando em ampliar o diálogo e propor novas abordagens, convidamos os interessados a contribuir com o dossiê “Vikings, Escandinávia Medieval e Ensino de História”, com chamada aberta aos professores, estudantes e pesquisadores que possam contribuir com estudos, pesquisas e relatórios sobre práticas teóricas, metodológicas e didáticas apresentando formas de como inserir e abordar a história da Era Viking e de seus múltiplos contatos no ensino de história brasileiro, tanto em âmbito escolar, quanto universitário. Temas que podem ser elaborados e submetidos ao dossiê incluem não só os usos de fontes primárias em sala de aula, em especial as sagas islandesas, bem como as abordagens da mitologia germano-escandinava a partir de livros especializados e poemas medievais, mas as suas conexões com as produções culturais contemporâneas que tenham uma reflexão positiva em sala de aula. 

Com a popularização da temática da Vikingmania no século XXI, dispomos de uma grande quantidade de produções midiáticas, comerciais, artísticas, acadêmicas e culturais, as quais refletem uma massificação do uso da palavra viking e todo os seus correlatos empregados para diversos fins (LÖNNROTH, 1997; NUNES, 2016). Partindo da concepção de pensar um neomedievalismo que gera ressignificações e reutilizações políticas, sociais e culturais da Idade Média (FUGELSO, 2010), o dossiê propõe abordar essa temática dentro do Ensino de História no Brasil, país da América Latina que apresenta uma grande influência da Vikingmania nos últimos vinte anos. 

Dessa forma, esperamos, também, receber propostas didáticas e metodologias de ensino, que abordem a temática viking através de vários enfoques, se utilizando do cinema, quadrinhos, videogames, estudos literários, mitológicos e culturais. O prazo para a submissão é até 30 de abril de 2022 e deve ser feito pelo site da revista. O periódico Scandia também receberá artigos a serem publicados na seção de temática livre, os interessados em submeter seus artigos devem fazê-lo seguindo o mesmo prazo.  

Referências bibliográficas:  

 BARROS, Lucas & TREVISAN, Mariana. RPG e ensino de história medieval: repensando os Vikings. Caderno Intersaberes 10 (25), 2021, pp. 145-163. 

CEDERLUND, Carl Olof. The modern myth of the Viking. J Mari Arch, n. 6, 2011, p. 5-35.  FUGELSO, Karl (eds). Defining Neomedievalism(s). Cambridge: D. S. Brewer, 2010.  

LANGER, Johnni. Os Vikings e o estereótipo do bárbaro no ensino de história. História e Ensino, Londrina, v. 8, p. 85-98, out. 2002.  

LIMA, Douglas Mota Xavier de. Uma História Contestada: a história medieval na base nacional comum curricular (2015-2017). Anos 90, v. 26, 2019. 

LÖNNROTH, Lars. The Vikings in History and Legend. In: SAWYER, Peter. The Oxford Illustrated History of the Vikings. Oxford: Oxford University Press, 1997, p. 233–244. 

MONCRIEFFE, Marlon Lee. Decolonising the History Curriculum: euro-centrism and primary schooling. Palgrave: Londres, 2020. NUNES, Mônica Rebecca Ferrari.  Memórias e matrizes em textos midiáticos explosivos:  cenas medievalistas na cultura jovem. Intexto, v. 5, n. 37, 2016, pp. 242-261. 

PONCE, Ariel Gómez. El retorno de los bárbaros. Frontera semióticas y desmitificación de complejos culturales en la figura del vikingo. Revista de Culturas y Literaturas Comparadas, v. 6, p. 1-15, 2016. 

SOARES, Lucas Pinto. Ensino de História Medieval e jogos eletrônicos: ambientação e imaginário da Era Viking. 7º Simpósio eletrônico Internacional de Ensino de História, 2021.

quarta-feira, 26 de maio de 2021

Novo estudo do NEVE é publicado na Dinamarca

 



Mais um estudo do NEVE é publicado na Dinamarca. O artigo Valkyries and Danish National Symbolism in the 19th Century, de autoria de Johnni Langer, foi publicado no portal NORDICS.INFO (ISSN: 2597-016X), mantido pela Universidade de Aarhus (Dinamarca).

O estudo analisa as representações visuais e literárias do mito das valquírias no livro dinamarquês Illustreret Danmarkshistorie   for   folket (História ilustrada da Dinamarca para o povo), de autoria de Adam Fabricius, publicado em 1854.


O artigo pode ser acessado em pdf neste site. 


Para a versão original em html, clique aqui.

O mesmo autor havia publicado anteriormente outro estudo na Dinamarca, Unveiling the Destiny of a Nation: The representations of Norns in Danish Art (1780-1850) no periódico Perspective: Journal of art history, mantido pelo Museu Nacional de Arte da Dinamarca. 


terça-feira, 18 de maio de 2021

Estudo do NEVE é publicado na Revista de História Comparada (UFRJ)

 


A Revista de História Comparada (UFRJ) acaba de publicar o artigo RELIGIÃO, VIKINGS E ARTE: REFLEXÕES SOBRE O MEDIEVO NA PINTURA ST SIGFRID DÖPER ALLMOGE I SMÅLAND (1866), DE JOHAN BLACKSTADIUS, escrito por Johnni Langer.

O estudo analisa as representações envolvendo a cristianização da Escandinávia durante a Era Viking em uma pintura sueca do século 19.


O artigo pode ser acessado em pdf neste site.


Resumo: O artigo analisa a pintura São Sigfrido batiza o povo em Småland realizada em 1866 pelo sueco Johan Blackstadius, especialmente os conteúdos envolvendo a religiosidade medieval e temas históricos, como os Vikings e a sua cristianização. Utilizamos como referencial teórico e metodologia de análise os estudos sobre cultura visual de John Harvey. Procuramos também perceber esta pintura dentro da recepção de temas nórdicos medievais pela arte do século XIX, com suas diferenças e descontinuidades, utilizando referenciais comparativos. Nossa principal conclusão é que esta obra esteve vinculada aos ideais do nacionalismo na Suécia, bem como aos temas de conversão na arte pan-escandinava.






sexta-feira, 14 de maio de 2021

Soe o gjallarhorn, Heimdall: a música nórdica na Era Viking

Reconstituição de instrumentos da Era Viking, Destination Viking Association

 

Acessar versão pdf deste ensaio


                                                                                                                 Márcia Gutierrez

Graduada em História pela Universidade da Amazônia (UNAM)



1.       Introdução:

           A música desempenhou um papel de extrema importância no período da Era Viking, sendo presente em todas as esferas sociais daquele período, ela unia a todos para as mais diversas ocasiões, dentre reuniões, comemorações, acordos, festividades e até mesmo nos momentos finais de vida de um indivíduo naquela sociedade, o fim não era simplesmente a tristeza da perda, mas um novo começo para alguém em algum lugar seja no Valhalla, no Fólkvangr ou em Hellheim.

            Achados arqueológicos mostram que a música naquele período foi algo mais complexo do que muitos imaginavam, os nórdicos possuíam um vasto conhecimento musical para a criação de suas canções bem como dos instrumentos musicais que utilizavam para “dar vida” a elas. O que hoje temos de entendimento por lútier como construtor de instrumentos musicais, na Era Viking não tínhamos alguém propriamente responsável por suas construções. Não se sabe ao certo quem os fazia, mas que foram usados por diversas pessoas e dentre eles os poetas denominados Escaldos[i] (TSUKAMOTO, 2018, p.2).

              A construção dos instrumentos musicais utilizava dois principais materiais: a madeira e ossos de origem animal, sendo que cada instrumento musical continha características próprias sendo acrescido ou não de algum detalhe, como a fabricação de maneira rústica, mas que mostravam sinais de um estudo sonoro para que as notas fossem tocadas da maneira correta bem como a posição que se segura cada instrumento. Dentre esses instrumentos de sopro, corda, e percussão, tinham de ter precisão para soarem como desejado pelo usuário (HURSTWICK, 2001).

              Porém, a música também seguiu suas linhas para um instrumento que muitas vezes pode passar despercebido, a voz. O canto foi descrito pelo viajante Al-Tartushi em sua viagem pela Escandinávia nos anos 900 d.c Em seu relato o autor afirmou que nunca tinha ouvido uma música tão horrível quanto dos habitantes do Mar Báltico (acredita-se que mais precisamente ele esteve em Hedeby, Dinamarca, no comércio central). Que segundo ele era “um zumbido, que lembrava o uivo de um cachorro, só que mais bestial”. O mesmo pôde não ter compreendido do que se tratava ou até mesmo descreve o que pensou sobre aquilo que via a partir da visão que tinha sobre o conceito de música, mas para os nórdicos havia prazer em cantar daquela forma, afinal era a forma de se expressarem naquela situação (MUSEET NATIONAL, 2019).


   2. Composições:

           Na Era Viking não houve registros de composições escritas ou traduzidas para tablaturas ou partituras, sendo a segunda o registo mais antigo de tentativa de compreender e visualizar as canções deste período, muitas sendo realizadas no período da conversão dos países Escandinavos ao cristianismo.

            O Códex Runicus[ii] traz uma canção popular chamada “eu sonhei um sonho ontem à noite” (Drømde mig en drøm i nat), sendo esta reconhecida como o registro mais antigo de uma música na Escandinávia (MAGLOR, 2013).

 

 

Fig. 1: Trecho da música Drømde mig en drøm i nat, no Códex Runicus, http://www.vikinganswerlady.com/music.shtml.

 

             Outra composição que chama bastante atenção e que tem sido vista como a possibilidade de nos aproximarmos cada vez mais das formas de se fazer música na Era Viking, é a canção Nobillis Humillis, um louvor a São Magno Erlundsson, que se tornou mártire da Ilha de Egislay durante um conflito com seu primo Hakon pela divisão justa do condado de Órcades. Sendo preservada junto com o Ex Lux Oritur, o hino de casamento da princesa Margaret da Escócia com o rei Norueguês Eric II, no manuscrito de St. Magnus Hymn.

 

 
Fig. 2: Nobillis Humillis no documento de St.Magnus Hym, https://photos.orkneycommunities.co.uk/picture/number900.asp.

 

            Nobilis Humillis tem sido vista como uma composição que causa estranheza, pois não se adapta a audição do que entendemos por música na maioria das vezes, ela possui uma beleza única, mas para quem escuta em uma primeira vez se faz valer do mesmo senso que Al-Tartushi teve do canto dos dinamarqueses (VIKING ANSWER LADY, 2013).

               A música na Escandinávia mostrou-se arqueologicamente possuidora de diversos estilos que hoje definimos como um só, naquele momento houve uma constante troca cultural entre o saber considerado pagão e o saber cristão, no estilo Gymel[iii], de cantar há a presença de musicalidade escandinava como também Anglo-saxã, e o mais curioso ainda é a de que a composição Nobillis Humillis poderia nos revelar que uma música da Era Viking possui a harmonia e outros recursos musicais semelhantes ao do hino Orkney (Séc. XIII), um hino cristão da igreja de St.Magnus (MIDGARD HISTORICAL CENTER, 2001).    

              Outros indícios sobre as formas de como a música na Era viking poderia ter sido tocada, provém de composições da música islandesa na qual um estudo de 1780, feito pelo pesquisador Jean-Benjamin de la Borde em seu livro "Essai sur la Musique Ancienne et Moderne", traz cinco canções com textos em nórdico antigo, sendo três das músicas são trechos da Edda Poética, dos poemas Völuspá e Hávamál. E do poema escaldico Krákumál (Séc. XII), possuindo semelhanças entre si. A quarta canção foi feita para o rei norueguês Haroldo Sigurdsson que reinou de 1046 até 1066. E apenas a última partitura, Lilja, se difere das demais, sendo essa vista como uma música importada de outro país (VIKING ANSWER LADY, 2013).

 

 

Fig. 3: Trecho de partitura contendo parte do poema Völuspá,  http://nibelungsalliance.blogspot.com/2013/02/musica-era-viking.html

 

    3. Instrumentos Musicais:

          Durante a Era Viking o processo de instrumentalização musical se deu em quatro principais categorias: instrumentos de sopro, percussão, corda e o canto (voz). No canto como já citado foi presenciado pelo viajante árabe Al-Tartushi e também há um outro relato do embaixador árabe Ahmed Ibn Fadlan que descreve em um relatório, um canto sendo entoado no funeral de um chefe Rus’[iv]  no ano 920 d.C (AYOUB, 2018, p. 54-56).

“Eles o queimaram desta forma: eles o deixaram os primeiros dez dias em um túmulo. Seus bens divididos em três partes: uma parte para suas filhas e esposas, outras roupas para vestir o cadáver, outra parte cobre o custo da bebida inebriante que consumiram no curso de dez dias, unindo-se sexualmente com mulheres e tocando instrumentos musicais. Depois disso, o grupo de homens que estavam com a escrava fizeram uma espécie de caminho pavimentado usando suas mãos esse pelo qual a menina, colocando os pés nas palmas das suas mãos, subiu no navio. Os homens vieram com escudos e bastões. Ela recebeu um copo de bebida inebriante, ela cantou e bebeu. O intérprete me disse que desta forma se despediu de todos os seus companheiros. Em seguida, lhe foi dado um outro copo, ela pegou e cantou por um longo tempo, enquanto a velha incitou-a a beber e ir para o pavilhão onde seu mestre estava” (FADLAN, 2018, p. 68-70).

                

             3.1. Instrumentos de Sopro:

·         Chifre de Vaca e Chifre de Cabra: Esses instrumentos tem suas origens associadas aos mitos nórdicos sendo o mais famoso o Gjallarhorn do deus Heimdall, o mesmo o usaria para anunciar a batalha final dos deuses no Ragnarök (MIRANDA, 2018, p. 2017).

 

 

Fig. 4: Homem toca uma réplica de um chifre com furos,                                 http://www.vikinganswerlady.com/music.shtml

 

            Feitos dos chifres de vacas ou cabras esses instrumentos possuíam duas variantes uma abertura apenas para sopro e a outra com pequenos furos além da abertura principal variando de 4 a 5 furos (OLSEN, 2018).

·         Flauta: Instrumento mais encontrado do período, a flauta era feita de ossos das patas de animais como a vaca, o veado, a ovelha e grandes pássaros, por isso os exemplares variam de tamanho e forma, a maioria delas é pequena, com 3 furos, mas outros exemplares mostram até 7 furos (BIRDSAGEL 1993,p. 420-423).

 

·         Panpipe: Datada do século X e encontrada em York, Inglaterra, a Panpipe constitui de uma pequena placa de madeira com furos de diferentes profundidades sendo a parte de cima dos orifícios chanfrados para dar conforto aos lábios do usuário, no exemplar encontrado é possível tocar as notas Lá, Si, Dó, Ré e Mi[v].

 

 ·         Skalmejen: Encontrado na ilha de Falster na Dinamarca, causou surpresa nos pesquisadores do local devido ao sua aparência, acredita-se que seja membro da família das gaitas de fole, já que outro exemplar foi encontrado na Suécia com uma possível bolsa de couro detectada nos restos encontrados, porém pode ter sido uma espécie de hornpipe.

 

·         Jaws harp: Harpa de tamanho pequena feita de metal que é tocada com a boca, produzindo um som incomum.

 

·         Lur: Semelhante a uma trombeta porém era feito de madeira, possuí o interior oco e duas metades amarradas na parte de trás por faixas de salgueiro; teria sido usado por fazendeiros para chamar seu rebanho de gado, bem como acredita-se na possibilidade de seu uso para reunir os exércitos de ataque durante o período de guerras (SKJALDEN, 2018).

 

              3.2. Instrumentos de Corda:

·         Lira: Tida como uma espécie de “harpa” é considera nas sagas nórdicas um instrumento de cavalheiros (BIRDSAGEL, 1993,p. 420-423).

·         Tagelharpa: Da tradução harpa de crina, pois suas cordas são feitas da crina de cavalo, o músico Einar Selvik do grupo Wardruna popularizou o instrumento nos dias de hoje.

 

·         Rabeca: Este instrumento teria sido apreciado pelos nórdicos durante uma viagem dos mesmos ao Império Bizantino, semelhante a um violino com som diferenciado do mesmo, os mesmos o incorporaram em suas tradições musicais.

 

 

Fig. 5: Einar Selvik toca a Tagelharpa no Museu do navio Viking em Oslo, Noruega, https://www.youtube.com/watch?v=s2emii9SpBw

            

            3.3.Instrumentos de percussão:

            O tambor nórdico era semelhante ao irlandês bodran e também aos tambores com a cabeça de couro animal usado pelos povos Sami. E eram utilizados em rituais, cerimonias e para composições musicais (SKJALDEN, 2018).

 

Fig. 6: Réplica de Tambor nórdico, http://www.vikinganswerlady.com/music.shtml

 

     

              3.4. Sinos e Chocalhos:

            Encontrados em grande variedade, mas ainda em suposições de estudo, na qual uma delas remete que os sinos faziam parte da produção musical dos nórdicos mas também seriam usados para afastar maus espíritos das crianças ao deitarem na cama (FOLLOW THE VIKINGS, 2019).

 

 

Fig. 7: Adorno com guizos da Era Viking encontrado em Novgorod, Rússia, https://br.pinterest.com/pin/512354895085869091/

 

4. As representações atuais da música da Era Viking: Recriando as tradições nórdicas antigas:

        Apesar de termos poucas fontes e estudos sobre como era a música na Era Viking de fato, vale a pena conferir o trabalho de músicos que se inspiram nos estudos que já foram feitos sobre esse assunto e também na cultura nórdica desse período. Existe uma gama de artistas que se dedicam a recriar os aspectos musicais daquele época, aprendendo a tocar desde os instrumentos aqui apresentados até a composição de letras na língua nórdica antiga, com influências principalmente das estórias que englobam os mitos nórdicos.

          Muito além do que se pensa de que a música nórdica somente está presente em outros gêneros como o chamado Viking Metal, Folk Metal, Pagan Metal, etc. Há grupos que firmaram seu repertório em uma tentativa de resgate da música no período da Era Viking, mas mesclando-o com elementos musicais atuais, demonstrando não só suas habilidades mas o estudo e pesquisa que os mesmos tiveram sobre essa temática, o mais famoso deles talvez seja Einar Selvik do grupo Wardruna, que acabou ganhando visibilidade na série Vikings (2013-2020), e uma participação no episódio 6 da 4° temporada da série, e também compôs para a trilha sonora de Assassin’s Creed Valhalla (2020). Por falar em jogos e séries, um grupo que até então parecia desconhecido acabou também fazendo parte desse universo. O grupo Heilung apareceu com sua música Fylgija Ear na 6° temporada, episódio 10 da série Vikings e teve sua música pela primeira vez na grande mídia no trailer do jogo Hellblade II: Senua`s Saga com previsão de lançamento para este ano, dando ainda mais visibilidade ao grupo.

          Destaco que apesar de se utilizarem de instrumentos e inspirações medievais, suas composições não correspondem à realidade vivenciada pelos nórdicos na Era Viking. Muito pouco se sabe sobre como era de fato as canções nesse período, portanto o que temos são adaptações modernas (LUND, 2010, p. 236). Não se há evidências diretas por exemplo de que a mitologia nórdica fazia parte do repertório daquela época, e apesar do estudo feito por estes grupos, há acadêmicos da área de arqueomusicologia com melhores embasamentos teóricos e práticos, que por sua vez buscam recriar experiências com a música nórdica antiga em lugares como museus, centros de pesquisa, Universidades, etc.

    Aqui segue mais dois grupos e um projeto que vale a pena conferir para conhecer melhor sobre esse assunto e sobre a sonoridade dos instrumentos da Era Viking:

·         SKÁLD: O grupo francês começou como um trio formado por Justine Galmiche, Pierrick Valence e Mattjö Haussy. Hoje um duo com Galmiche e Valence, além dos músicos que participam na complementação musical do grupo, os mesmo chamaram muita atenção dos amantes deste gênero musical(Folk Nórdico) que resgata às histórias de textos da Edda em prosa e da Edda poética. O canal no youtube além de divulgar o trabalho dos músicos, possui uma sessão de explicações sobre as histórias das canções e sobre o funcionamento dos instrumentos utilizados para compô-las.    

 

 

Fig. 8: Foto promocional da banda Skáld para o albúm Viking Memories, https://www.last.fm/music/Sk%C3%A1ld/+images/235be96d50826f341b8d69278c8a141c

 

·         Danheim: O projeto do produtor dinamarquês Mike Olsen tenta recriar com certa, autenticidade músicas do período da Era Viking trazendo um som e uma ambientação mais parecida “ao possível estilo nórdico antigo de se fazer música”. Sua composições possuem algumas vocalizações e outras são totalmente instrumentais.

 

 

Fig. 9: Mike Olsen criador e membro do projeto Danheim, https://www.youtube.com/c/Vikinged/about

 

·         Asynje: Grupo formado por cinco integrantes, é uma colaboração musical de membros da subcultura paganfolktrone dinamarquesa. O grupo mistura sons eletrônicos com a música tradicional escandinava e se inspira nos mitos e lendas nórdicas, utilizando instrumento antigos que recriam um ambiente entre mito e natureza escandinava.

 

 

Fig. 10: Asynge se apresenta no Castle Festival 2012, http://asynje.dk/welcome/

 

5. Curiosidades e achados arqueológicos importantes:

      A evidência mais antiga de um instrumento musical na Era Viking foi encontrado na cidade de Ribe (Dinamarca), trata-se de um pedaço de uma Lira que data do ano 720 d.C. (OLSEN, 2018)

     A flauta de Aarhus encontrada na Dinamarca é um pequeno instrumento do séc. 13, feita a partir do osso da pata de um cordeiro, além dela outros exemplares foram encontrados no centro de Birka (Suécia) e continham apenas dois buracos paro os dedos.

   Em Coppergate, na Inglaterra, um conjunto de panpipes foi encontrado e data de meados do Séc. X.

     Um trecho da tapeçaria de Bayeux (1070) retrata um músico tocando um chifre de Vaca, devido a produção da tapeçaria ter sido produzida durante a conquista de Guilherme da Normandia, descendente de Rollo da Normandia, o qual realizou campanhas na França e Inglaterra (VIKING ANSWER LADY, 2013).

 

Fig. 11: Cena de um possível músico na tapeçaria de Bayeux, http://nibelungsalliance.blogspot.com/2013/02/musica-era-viking.html#:~:text=Mesmo%20antes%20da%20Era%20Viking,fortium%20ituri%20in%20proelia%20canunt.


             O lur de madeira foi um dos achados encontrados em uma câmara mortuária em Oseberg, na Noruega. Foi a partir desse instrumento que se comprovou que o lur fazia parte do repertório musical da Era Viking (OLSEN, 2018).

              De la Borde se tornou uma pista para os estudos dessa temática pois em sua obra menciona “como elas são cantadas na Islândia hoje”, o mesmo confirma que as músicas que estudou foram estudadas pelo músico alemão Johann Ernst Hartmann, que residia na Dinamarca, por isso não se sabe ao certo como as composições islandesas chegaram até lá. Supõe-se, que Hartmann conheceu islandeses, onde morava, revelando assim o legado musical que os mesmos(islandeses) herdaram do processo colonial Dinamarquês no território da Islândia, durante a Era Viking (HORTON, 1963, p. 19).

              No séc. XII o rei norueguês Magnus Erlingsson comentou sobre um músico e disse que ele pareceu bobo quando soprava seu instrumento musical ficando com a boca retorcida e bochechas infladas, tal história se assemelha a lenda nórdica de Stærkodder[vi] .

 

Fig. 12: Pintura de Lorenz Frölich, Stærkodder og Hother,1852 https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Lorenz_Fr%C3%B6lich_-_St%C3%A6rkodder_og_Hother_-_1852.png

 

              Uma outra possível evidência dos instrumentos de corda da Era Viking está na catedral de Nidaros, em Trondheim, na Noruega, construída em 1070 d.c e finalizada em 1300 d.C, trata-se de uma escultura de pedra de um músico tocando um instrumento de 3 cordas (OLSEN, 2018).

 

  6. Conclusão:

         A música nórdica da Era Viking ainda é um tema que requer mais estudo e atenção das produções acadêmicas, pois temos pouca informação concreta sobre esse processo em tal período. Muito do que se tem são relatos e estudos musicais que tentam se aproximar do que teria sido a música ou a forma de como se fazer música para os vikings.

       Temos também a presença de registros arqueológicos e o funcionamento dos instrumentos musicais daquela época bem como alguns dos registros escritos do cristianismo de partitura poderiam nos levar a sonoridade em parte exata da música como era feita na Era Viking.

      O surgimento de grupos e projetos musicais em nosso tempo tem possibilitado dar uma luz aos estudos deste tipo de sonoridade na qual incorporam elementos atuais, mas com recriação dos moldes do fazer música para os nórdicos da Era Viking.

 

5. Referências Bibliográficas:

Fontes primárias:

FALAN, Amad Ibn. Viagem ao Volga. Tradução: Pedro Martins Criado. São Paulo: Carambaia, 2018, p. 68-70.

 

Fontes secundárias:

AYOUB, Munir Lutfe. Ibn Fadlan. In: LANGER, Johnni (Ed.) Dicionário de história e cultura da Era Viking. São Paulo: Hedra, 2018, pág. 54-56.

 BIRDSAGEL, John. “Music and Musical Instruments,”. In: Medieval

Scandinavia: An Encyclopedia. Edited by Phillip Pulsiano. New

York: Garland, 1993,p. 420-423.

 HORTON, John. Scandinavian Music: A Short History. California: Greenwood Press, 1963, p. 19.  

 MIRANDA Paulo Gomes. Música. In: LANGER, Johnni (Ed.). Dicionário de história e cultura da Era Viking. São Paulo: Hedra, 2018, p. 517.

 LUND, Casja S. People and Their Soundscape in Viking-Age Scandinavia

Critical Reflections in a Music-Archaeological Perspective.In: Studien zur Musikarchäologie VII. Berlin: Rahden/Westf ,2010,p. 236.

 TSUKAMOTO, Chihiro. What did they sound like?Reconstructing the music of the Viking Age. Dissertação: Mestrado em Estudos Islandeses Medievais. Reykjavik: Universidade da Islândia, 2017,pág. 2.

 

Referências Online:

 ENTER, Midgard Historical. The Songs of the Vikings, 2001, Disponível em: http://www.lienet.priv.no/Vikings.htm

HUSTWICK. Music of the Viking Age, 2001, Disponível em: http://www.hurstwic.org/history/articles/literature/text/music.htm

 LADY, Viking Answer. Viking Age Music,2013, Disponível em: http://www.vikinganswerlady.com/music.shtml

MAGLOR, Tiago. Música Era Viking, 2013, Disponível em:   http://nibelungsalliance.blogspot.com/2013/02/musica-era-viking.html

MUSEET, National. Music in the Viking Age, Dinamarca,2019, Disponível em: https://en.natmus.dk/historical-knowledge/denmark/prehistoric-period-until-1050-ad/the-viking-age/the-people/music/#:~:text=Music%20was%20also%20an%20important,bone%2C%20but%20sometimes%20from%20wood.

OLSEN, Mike. Viking-Age Instruments,2018, Disponível em; https://danheimmusic.com/viking-age-instruments/

SKJALDEN. Viking instruments-Viking Age music,2018, Disponível em: https://skjalden.com/viking-age-music/

VIKINGS, The Follow. Music and Instruments: How Musical Were the Vikings? , 2019, Disponível em: https://www.followthevikings.com/discover/culture/music#:~:text=The%20lur%20is%20one%20of,willow%20bands%20of%20different%20lengths


NOTAS

 

[i]  Escaldo: Poeta e contador de estórias cuja denominação vem de regiões como Noruega e Islândia, https://www.dicionarioinformal.com.br/diferenca-entre/escaldos/viking/

[ii] Manuscrito de 1300 d.c que contém os primeiros trechos da lei Scanian ou Dinamarquesa, https://www.apmanuscripts.com/special-collection/codex-runicus

[iii] Estilo musical medieval que utiliza composição polifônica, https://delphipages.live/pt/entretenimento-e-cultura-pop/teoria-da-musica/gymel

[iv] Vikings que ocuparam a região da Europa Oriental onde hoje compreende países como a Ucrânia e a Rússia, https://www.historiadomundo.com.br/russa

[v]  Na leitura representada pelas letras ABCDE respectivamente.

[vi]  Também conhecida pelo nome de Estarcatero/Starkad,o velho, a lenda conta sobre um herói nórdico que fora menestrel de reis dinamarqueses, e que é descrito como um ser sobrenaturalmente grande e forte, porém de moralidade duvidosa, na saga de Gautrek ele é de Jotunheim, sendo mencionado entre os gigantes na batalha de Bråvalla, https://snl.no/Starkad_den_gamle