O grupo interinstitucional NEVE tem como principal objetivo o estudo e a divulgação da História e cultura da Escandinávia Medieval, em especial da Era Viking, por meio de reuniões, organização de eventos, publicações e divulgações em periódicos e internet. Conta com a colaboração de professores, pós-graduandos e graduandos de diversas universidades brasileiras, além de colaboradores estrangeiros. Filiado à ABHR (Associação Brasileira de História das Religiões). Registrado no CNPQ. Contato: neveufpb@yahoo.com.br

segunda-feira, 27 de março de 2017

Vestanspjǫr e o recriacionismo nórdico no Brasil


Cozinhando com os vikings, VICE, março de 2017
 
Vestanspjǫr e o recriacionismo nórdico no Brasil
 

O interesse pelo passado nórdico está cada vez maior em nosso país. Nos últimos anos vem surgindo no Brasil diversos grupos dedicados ao denominado Reenactment (recriacionismo), especialmente em São Paulo e Rio de Janeiro. A listagem já é muito grande, contando além do pioneiro Hednir, os grupos Haglaz, Escudo dos Vales, entre muitos outros pelo Brasil. Entre esses grupos, podemos destacar o trabalho do Vestanspjǫr Viking Reenactment, do qual o NEVE realizou uma pequena matéria e entrevista, sintomática da presença do recriacionismo nórdico no meio brasileiro.

Segundo o Vestanspjǫr, o recriacionimo é "uma atividade em que são feitas pesquisas e estudos a fim de reconstruir e difundir aspectos de um determinado evento ou período histórico. Portanto, nosso trabalho consiste em recriar, da melhor maneira possível, a cultura material e imaterial dos antigos povos do norte da Europa temporalmente localizados na Era Viking, que corresponde ao período do VIII ao XI século d.C. na história da Escandinávia. Estudamos diversos costumes, saberes e características desses povos, como linguagem, pintura, música, indumentária, gastronomia, religião, esporte, até a prática do ´combate viking´, utilizando armas adequadas à recriação". Aqui o recriacionismo se aproxima muito das ações do Living History, uma prática que já vem sendo adotada em várias partes do mundo e que foi matéria em nosso blog (Living History: uma nova forma de ensinar e pesquisar História).


 
 
O Vestanspjǫr é composto pelos seguintes membros:

- Lucas Carvalho, 26, graduando em engenharia e operário de construção civil.

- Natália Bianco, 26, arquiteta e urbanista.

- Matheus Pastrello, 23, graduando em História, estudante de direção de arte e estagiário no Centro de Documentação e Memória do Museu Judaico de São Paulo.

- Felipe Pedoneze, 25, graduando em História, professor, ferreiro e técnico em mecânica.

- Juan Oliveira, 26, designer gráfico e web designer.

- Paulo César Revuelta, 30, gestor de contratos e assistente jurídico na Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo.

 

Noite medieval de Rio Claro/SP, setembro de 2016.
 


1. Quando o grupo surgiu?


O Vestanspjǫr começou a ser idealizado no final de 2015, mas tornamos nosso trabalho público a partir de julho de 2016.




2. Porque foi criado o grupo e quais os objetivos?


O Vestanspjǫr surgiu da ideia comum entre amigos (que tiveram experiências prévias no recriacionismo histórico e que mantinham interesse em voltar à prática) de criar um grupo para estudar a cultura dos povos escandinavos da Era Viking e praticar o Viking Reenactment. Portanto, o trabalho do grupo consiste em recriar, da melhor maneira possível, a cultura material e imaterial dos antigos povos do norte da Europa, mais conhecidos como "vikings".


3. Como o grupo realiza suas pesquisas de reconstituição?


As pesquisas partem de um acervo básico construído ao longo de diversas oficinas de estudo que discorrem sobre aspectos básicos e fundamentais da Era Viking, pintando um panorama geral do período e dando base ao aprofundamento de pesquisas específicas como, por exemplo, as de recorte. A partir disso, os membros do grupo pesquisam individualmente em diversas fontes para a construção e aprimoramento de seus recortes. Uma vez que o grupo não é composto única e exclusivamente por historiadores, as pesquisas individuais são apresentadas, discutidas e analisadas em grupo, com o objetivo de aferir sua precisão e credibilidade. Como o recriacionismo histórico é uma atividade em compromisso com a assertividade histórica, é sempre recomendado que as pesquisas se fundamentem em trabalhos e artigos acadêmicos, fontes escritas, visuais e de cultura material.


4. Como o grupo percebe o futuro do recriacionismo medieval brasileiro?


Acreditamos estar presenciando, ao menos nos últimos anos, o momento de maior interesse sobre a figura do "viking" e do período medieval como um todo. Isso graças ao sucesso midiático de recentes produções cinematográficas como as séries Vikings, Game Of Thrones e O Último Reino. Além dessas, há também a grande influência de jogos eletrônicos como Skyrim e o mais recente For Honor e também a profusão de bandas do gênero denominado "viking metal" na última década, como Amon Amarth, Turisas, Arkona, entre outras. Por mais que não sejam tão enfáticos em relação à precisão histórica, todos esses produtos de entretenimento trazem em suas temáticas elementos da cultura "viking", que despertam interesse por parte daqueles que os consomem.

De modo geral, a prática do recriacionismo histórico cresceu bastante nas últimas décadas, especialmente em regiões que possuem uma identificação cultural e/ou geográfica com o período medieval. Tal identificação permite que muitos grupos tenham acesso a apoio acadêmico e financeiro de instituições culturais, de pesquisa e de ensino, fator que contribui para manutenção dos mesmos através da própria recriação histórica. Já no Brasil, sabemos que o incentivo às atividades culturais é escasso (situação esta que não tem apresentado sintomas de melhoras), especialmente quando nos referimos a apoio ao estudo e pesquisa de elementos culturais externos à nossa história. Devido a isso, a atividade de recriação histórica ainda habita o campo do entretenimento e é tratada como hobby pela esmagadora maioria dos recriacionistas nacionais.

Parte do grupo é otimista em acreditar que a cena recriacionista medieval do Brasil crescerá significantemente a ponto de alcançar o patamar de atividades como o RPG e que pode ter um "boom" similar ao do E-Sports, porém, obviamente, o recriacionismo é uma atividade que move muito menos dinheiro se comparado às duas. Já outra parte do grupo acredita que, uma vez passado o impulso midiático gerado pelos produtos de entretenimento previamente mencionados, a cena recriacionista medieval brasileira passará por um processo de "refinamento" que resultará em um número menor de entusiastas, porém, um aumento no número de recriacionistas mais dedicados e compromissados com a qualidade de seus trabalhos. Ainda há a questão de que a cena se encontra fragmentada devido a desalinhos que não necessariamente correspondem à prática do recriacionismo histórico e, infelizmente, isso interfere em seu crescimento e estabilidade. Enquanto grupo, acreditamos que essas sejam questões fáceis de serem resolvidas e que suas resoluções beneficiariam o cenário do recriacionismo brasileiro como um todo. Com isso, poderíamos atingir patamares maiores do que os atuais.
 
Treino de combate viking
 
 

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