O grupo interinstitucional NEVE tem como principal objetivo o estudo e a divulgação da História e cultura da Escandinávia Medieval, em especial da Era Viking, por meio de reuniões, organização de eventos, publicações e divulgações em periódicos e internet. Conta com a colaboração de professores, pós-graduandos e graduandos de diversas universidades brasileiras, além de colaboradores estrangeiros. Filiado à ABHR, VIVARIUM e ABREM. Registrado no CNPQ. Contato: neveufpb@yahoo.com.br

quarta-feira, 25 de junho de 2014

ENTRE TRANÇAS E NÓS: OS ADORNOS CAPILARES FEMININOS NA ERA VIKING

                                                          Prof. Luciana de Campos                                                  (Doutoranda em  Letras pela UFPB, membro do NEVE e VIVARIUM).

            Os cabelos sempre foram um dos adornos mais importantes usados pelas mulheres desde a Pré-História. Podiam ser utilizados para simplesmente enfeitar-se ou seduzirem, ou arrumá-los para agradar aos deuses e, assim protegerem-se contra possíveis infortúnios e também demonstrarem o seu status social. Uma mulher que apresentasse farta cabeleira, bem arrumada era mais do que um simples acessório de beleza, e pode apresentar-nos maiores possibilidades de análise do seu uso e não apenas restringir-se à habilidade manual para a composição de tranças e nós, pois, essas tramas capilares são reveladoras de posições sociais, de estado civil e também de serviço religioso e de utilização mágica.
            Os cabelos longos utilizados tanto por homens como por mulheres – desde a Mesopotâmia até o mundo contemporâneo - sempre estiveram ligados à virilidade, a força e também a liberdade (Rouche, 2009, p. 441). A literatura, as artes plásticas, o cinema e, mais recentemente os jogos de RPG e eletrônicos sempre apresentaram os guerreiros mais fortes e as mulheres mais belas com vastas e espessas cabeleiras, as madeixas femininas muitas vezes caiam até a altura da cintura e havia aquelas mais longas ainda. A arte Pré-Rafaelita sempre apresentou as suas mulheres que na maioria das vezes eram personagens da mitologia e do folclore nórdicos com cabelos muito longos geralmente soltos para reforçar o seu caráter de sedução e também mostrar que os cabelos muito longos constituíam um padrão de beleza da Era Viking. Essas representações das longas cabeleiras tanto masculinas como femininas que sobreviveram ao longo do tempo nas artes e também no imaginário popular, foram preservadas em pingentes, em múmias e na iconografia são fundamentais para entendermos como as tramas capilares femininas foram importantes meios de demonstração de condição social e também de práticas mágico-religiosas.
            Os cabelos femininos bem compridos eram deixados soltos pelas mulheres solteiras, não havendo a necessidade de ocultá-los sob os lenços ou toucas que evidenciavam o seu matrimônio (ROUCHE, 2009, p. 441,442), como mostram as imagens das figuras 3 e 4 de uma mulher da Era Viking que trança seus cabelos e depois faz um nó triplo (o Valknut ou nó dos mortos) com elas e envolve toda a cabeça com uma espécie de touca.

Types of Viking Headdresses from Coppergate and Lincoln (after Gail Owen-Crocker)


Figura 1: Ilustração contemporânea do uso de lenços ou tocas por mulheres da Era Viking, fonte: http://www.vikinganswerlady.com/hairstyl.shtml acesso em 27/02/2013 às 09:51. Figura 2: Ilustração contemporânea de tranças da Era Viking. Fonte: http://www.pinterest.com/pin/172333123214286860/ Acesso em 27/02/2013 às 09:54.

Adornados com longas tranças presas com fitas tecidas com linho lã específicas para prender os cabelos ou finas tiras de couro eram também presos por nós, principalmente o nó triplo, o valknut (Langer, 2010, p. 13) ou nó dos mortos que, e podemos supor que esses nós capilares não tinham somente um efeito estético, eram também utilizados como simbolismos mágicos.  As tranças podiam ser presas em forma de coque no alto da cabeça ou à altura da nuca, ou, então envolvendo toda a cabeça como uma coroa ou, então, presas umas as outras e atadas com o nó triplo e, depois envolvidas com um lenço. Já o nó triplo no alto da cabeça que deixava cair em cascata o restante dos cabelos é um penteado muito comum em pingentes da Era Viking representando as valquírias.
As imagens 1 e 2 abaixo mostram dois diferentes tipos de tranças e nós usados pelas mulheres na Era Viking: na primeira, as tranças são atadas por fitas ao redor da cabeça proporcionando um efeito estético que lembra uma coroa e, na outra ilustração (figura 2) há outra trança, também atada à nuca e cai pelas costas dando a impressão que estão emaranhadas por nós. A imagem 3 é a representação gravada em estela gotlandesa de uma valquíria segurando um corno de hidromel e pode-se perceber de maneira evidente o nó triplo em seus cabelos.

Valkyrie. Runestone from Alskog, Tjangvide, Gotland.


Figura 3: Imagem de valquíria da Era Viking, portando um tradicional nó odínico, Gotland, séculos VIII-IX. Fonte: Museu Histórico de Estocolmo. Figura 4: Pingente de Valquíria de Funen, Dinamarca, circa 800. Apresenta o mesmo nó que a figura anterior, mas em detalhes tridimensionais. Fonte: Jesch, 2014.

Nesses pingentes (figura 4) ou baixo relevos em pedra que representam as valquírias, essas mulheres aparecem de perfil segurando um corno de bebida e estão algumas vezes em trajes femininos muito comuns em toda a Era Viking:  vestidos com sobrecapa adornados por colares de contas e presos com fivelas de metal que quanto mais coloridos e trabalhados eram tantos as fivelas como os colares demonstravam a maior riqueza e visibilidade social de suas usuárias. Esses pingentes que representam as valquíras as colocam sempre em posição de atendentes, e o que evidencia que essas mulheres podem ser reconhecidas como valquírias é justamente pela presença do nó triplo do alto da cabeça e o corno de hidromel que seguram e o mesmo está pronto para ser entregue aos guerreiros que chegam ao Valhala. Mas também atentamos ao fato de que em pingentes, as emissárias de Odin geralmente portam equipamentos bélicos, como podemos constatar na figura 4, apresentando o mesmo nó capilar da figura 3.
Como essas representações de adornos capilares ainda é um campo pouco explorado tanto por pesquisadores nacionais como por estrangeiros e, portanto a bibliografia é praticamente inexistente, esse campo de estudo está relacionado diretamente ao estudo do corpo e suas representações.   Infelizmente esse tipo de pesquisa ainda consta apenas como curiosidade sobre a vida cotidiana das mulheres nórdicas da Alta Idade Média e muito há a ser estudado, pois essas representações são fundamentais para compreendermos a dinâmica de funcionamento de determinadas grupos sociais e tanto a roupa, como os acessórios, como por exemplo, as tranças e os nós são peças-chave para esse estudo. Há algumas pesquisas disponíveis muito genéricas sobre a história do cabelo seus adereços e, principalmente o seu uso não só como um simples adorno, mas, como um símbolo de poder e de visibilidade social.
Recentes estudos como os da arqueóloga britânica Marianne Moen que escreveu a dissertação “The gendered landscape” onde aborda questões pouco exploradas de gênero levanta muitas hipóteses que devem ser levadas em conta quando estudamos não somente a mulher na Era Viking, mas tudo o que cerca o mundo feminino na época como vestimentas, acessórios, utensílios domésticos e, principalmente um cuidado especial quando são utilizadas fontes literárias para essa análise. A arqueóloga ressalta que a partir do século XIX quando a Era Viking e, consequentemente a construção de um ideal de mulher viking passou a ter uma importância significativa para a composição e consolidação de uma identidade escandinava isso se deu sob a forte influência dos rígidos ideais vitorianos de conhecimento, moral, beleza e, principalmente comportamento. Durante a Era Vitoriana foram feitas muitas descobertas arqueológicas e durante esse processo estabeleceram-se rígidas normas de como deveriam ser apresentadas e representadas principalmente para o grande público que consumia via imprensa as notícias dessas descobertas, os modelos femininos vigentes das sociedades que estavam sendo estudadas a partir dos achados arqueológicos.
Os modelos de beleza vitorianos pregavam o recato: a mulher devia estar presa aos sufocantes espartilhos e, mesmo sem habilidade praticar cotidianamente o que, no mundo contemporâneo as mulheres fazem por prazer: thing lacing que é a habilidade de trançar com certa rapidez as fitas que prendem o espartilho e, claro manter presa e de preferência com muito recato com tranças, fitas e alfinetes a vasta cabeleira que podia ser mostrada apenas para o esposo na meia luz dos aposentos.
Esses modelos estéticos femininos que como já foi dito anteriormente ganhou força principalmente a Escola Pré-Rafaelita é praticamente o modelo vigente até hoje: no imaginário, a mulher viking sempre é representada com os longos cabelos presos com espessas tranças. Não há como pensarmos nelas sem os seus longos cabelos. A arte nas suas mais variadas formas já impregnou o nosso imaginário com esse modelo, mas um “corpo do pântano”, o “corpo de Elling” achado recentemente na Dinamarca, apresentou conservado o corpo e principalmente o cabelo de uma mulher, possivelmente pertencente a aristocracia, que apresenta um penteado com nós e tranças muito elaborado o que reforça a hipótese de que mais do que simples adorno natural os cabelos serviam para serem trabalhados e assim demonstrarem a visibilidade das mulheres na sociedade nórdica. As tranças do corpo feminino de Elling são importantes para compreendermos como esses penteados foram importantes não  só  para a  demonstração  de poder   dessas mulheres uma vez que seus


Elling Woman


Reconstruction of Elling Woman's hairstyle and cloak
Figura 4: Cabeça da Mulher de Elling. Fonte: http://www.tollundman.dk/ellingkvinden.asp. Acesso em 27/02/2013 às 10:00. Figura 5: reconstituição contemporânea das tranças da Mulher de Elling. Fonte: http://www.tollundman.dk/ellingkvinden.asp. Acesso em 27/02/2013 às 10:01.
           
cabelos eram trançados por outras mulheres, provavelmente suas servas ou até escravas e que cabelos muito elaborados com variados tipos de tranças e nós eram um privilégio das mulheres da aristocracia.
            Bem como as mulheres mesopotâmicas, egípcias, gregas, romanas e até mesmo as vitorianas, somente as mais abastadas podiam contar com servas para pentearem e, por assim dizer “esculpirem” seus cabelos de forma muito elaborada que além de realçarem a sua beleza eram um demonstrativo da sua alta posição. Pensando nas mulheres escandinavas que viviam em grandes propriedades que abrigavam um número considerável de trabalhadores aos seus serviços e onde ela detinha um poder que não pode ser visto como limitado à esfera privada, pois elas possuíam o controle das chaves não só da casa mas das despensas que durante os invernos rigorosos abasteciam as mesas de todos, portanto cabelos femininos artisticamente trançados eram uma grande demonstração de poder e de prestígio dentro da comunidade.
            O estudo dos adornos capilares femininos na Era Viking ainda está dando os seus primeiros passos, portanto é necessário muito mais estudos e uma pesquisa multidisciplinar onde a Arqueologia, a Literatura, a ourivesaria, e a iconografia estudadas em conjunto possam fornecer os dados necessários para investigarmos em profundidade e com muito mais rigor e propriedade o muito que os nós, as tramas e as tranças têm a nos dizer. É necessário pesquisas mais profundas, pois há pesquisadores interessados e mais ainda, há um grande numero de jovens estudantes que sentem-se motivados para estudar esse tipo de comportamento cotidiano, porém é necessário quem não se trave o conhecimento e que as práticas corriqueiras do cotidiano sejam vistas como fundamentais para o estudo assim como os documentos escritos.

 
  
Referências:
DAVIDSON, Hilda Ellis.  Myths and symbols in pagan Europe: early Scandinavian and celtic religions. Syracuse: Syracuse University Press, 1988.
JOCHENS, Jenny. Women in Old Norse Society. London: Cornell University Press, 1998.
ROUCHE, Michel. Do Império Romano ao Ano Mil. In: ARIÈS, Philippe e DUBY, Georges. História da Vida Privada. São Paulo: Companhia das Letras, 2009, p. 441.