O grupo interinstitucional NEVE tem como principal objetivo o estudo e a divulgação da História e cultura da Escandinávia Medieval, em especial da Era Viking, por meio de reuniões, organização de eventos, publicações e divulgações em periódicos e internet. Conta com a colaboração de professores, pós-graduandos e graduandos de diversas universidades brasileiras, além de colaboradores estrangeiros. Filiado ao The Northern Women’s Art Collaborative e
à ABHR (Associação Brasileira de História das Religiões). Registrado no CNPQ. Contato: neveufpb@yahoo.com.br

segunda-feira, 16 de junho de 2014

RUNAS E MITOS: RESENHA DO FILME RAGNAROK



Prof. Dr. Johnni Langer (UFPB/NEVE)

Mais uma vez o mundo nórdico da Era Viking é retratado em um filme, desta vez uma produção norueguesa para o grande público, Ragnarok (no original: Gåten Ragnarok, 2013). Dirigido por Mikkel Brænne Sandemose, o filme narra a descoberta por um arqueólogo (Sigurd Svenden) de misteriosas inscrições rúnicas que o levam a descobrir a "verdadeira história" por trás do mito do Ragnarok.

Museu do navio viking, com a coleção de Oseberg, em Oslo (Noruega).

A produção é muito influenciada pela estética de Hollywood, mais que os filmes realizados pelos escandinavos em geral, mas a Arqueologia é retratada de forma mais realista do que a série Indiana Jones (aproximando-se mais da produção O corpo,  de 2001). O ponto alto é o início, filmado no museu do navio viking em Oslo (Vikingskipshuset), que além de retratar várias peças encontradas na mais famosa descoberta arqueológica nórdica  (a sepultura de Oseberg, em 1904), também reconstitui alguns momentos de pesquisa em pedras rúnicas (runestones).

Inscrição rúnica da coleção de Oseberg, retratada no filme: "litet-vis maðr" ( o homem conhece pouco)

É muito interessante constatar o papel das runas no imaginário artístico ocidental, especialmente a partir de sua popularização no Oitocentos. Elas se tornam o trampolim inicial de diversas aventuras e expedições, a exemplo do famoso livro de Julio Verne, Viagem ao centro da terra (1864) ou da recente animação Atlantis: o reino perdido (2001). Na história da epigrafia, certamente depois dos hieróglifos egípcios, nada possui um caráter mais misterioso e exótico que as runas, sem contar o seu aspecto divinatório explorado pelo esoterismo moderno.
É a partir dessa premissa que o filme Ragnarok se desenrola. Após proferir o mistério da inscrição de Oseberg (que realmente existe, vide fotografia), o arqueólogo "decifra" supostas inscrições a partir da ornamentação de alguns objetos da sepultura (dedução fantasiosa, obviamente), e logo depois, analisa uma pedra rúnica encontrada na região de Finnmark (norte da Noruega). Ela foi baseada em runestones reais, mas o seu encaixe com um broche da coleção de Oseberg também é ficcional.
A partir deste momento o filme desemboca em peripécias sobre criptozoologia fantástica. A produção poderia ter explorado melhor as narrativas sobre o Ragnarok e os mitos pré-cristãos Mas apesar de seus vários defeitos, pode contribuir para popularizar a arqueologia nórdica e a runologia, temas bem menos conhecidos do que a história e a mitologia nórdica (a cena do encontro de um elmo Gjermundbu em Finnmark é muito divertida). Quanto aos vikings, já são extremamente explorados pela mídia e arte em geral.
Para o interessados nestes temas, a próxima edição do boletim Notícias Asgardianas vai apresentar um especial sobre runas e runologia. Aguardem para breve!


Para saber mais:

RAGNAROK: 
A morte de Odin? As representações do Ragnarok na arte das ilhas britânicas. Medievalista 11, 2012.

MUSEU DO NAVIO VIKING EM OSLO: 
Os museus vikings na Europa, Revista Museu 2004.