O grupo interinstitucional NEVE tem como principal objetivo o estudo e a divulgação da História e cultura da Escandinávia Medieval, em especial da Era Viking, por meio de reuniões, organização de eventos, publicações e divulgações em periódicos e internet. Conta com a colaboração de professores, pós-graduandos e graduandos de diversas universidades brasileiras, além de colaboradores estrangeiros. Filiado ao The Northern Women’s Art Collaborative (Universidade de Brown, EUA) e
à ABHR (Associação Brasileira de História das Religiões). Vinculado ao Programa de Pós Graduação em Ciências das Religiões da Universidade Federal da Paraíba. Registrado no Diretório de Grupos de Pesquisa do CNPQ. Contato: neveufpb@yahoo.com.br


quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Living History: uma nova forma de ensinar e pesquisar História



Atividade do grupo Torvik, especializado em Living History da Era Viking



LIVING HISTORY: UMA NOVA HISTÓRIA

                                   Prof. Dr. Johnni Langer (UFPB/NEVE)


Uma nova forma de divulgar, ensinar e pesquisar História vem sendo aplicada ainda de forma tímida em nosso país, mas aos poucos começa a ganhar mais adeptos: a prática do Living History (História Viva). Nascida na Europa, essa série de atividades está sendo desenvolvida por museus, institutos de pesquisa em História, escolas, universidades e também de forma ampla por diletantes e apaixonados pela História em geral, seja em festivais reconstrucionistas ou encontros casuais e culturais.

A ação do Living History tanto pode ser uma reconstituição de alguma atividade, uma cena ou acontecimento histórico específico, como a reprodução de costumes e práticas antigas. Procura-se recriar as vestimentas, o comportamento, os hábitos, a materialidade e o contexto social do período em questão. Em vários parques temáticos históricos dos Estados Unidos e Europa, os visitantes são interagidos com equipes especializadas nesta técnica, produzindo um melhor resultado na experiência de visitação.

Pic-Nic Vitoriano de São Paulo em 2015, Parque do Ibirapuera


Não apenas a História regional e local é reconstituída. Na Alemanha, desde os anos 1970 grupos de Living History reconstituem, por exemplo, a vida dos indígenas norte-americanos. Do lado oposto, nos Estados Unidos várias equipes reencenam episódios da vida medieval, do mundo romano ou da Antiguidade oriental.

Uma das mais impressionantes ações de Living History dos último tempos foi efetuada na área de um shopping da Holanda, a respeito de um quadro de Rembrandt - o museu nacional da Holanda (Rijksmuseum) estava com pouca visitação e resolver inovar. Música, ação e reconstituição: o resultado é impressionante, confiram no vídeo abaixo (Onze helden zijn terug! Nossos heróis estão de volta!):




No Brasil a TV Escola produziu uma série de alta qualidade, utilizando a técnica do Living History: Retrovisor. O jornalista Paulo Markun entrevista de forma fictícia diversas personalidades de nossa História, todos caracterizados: Anita Garibaldi, Monteiro Lobato, Frei Caneca, Euclides da Cunha, entre outros. Particularmente, o episódio de Anita Garibaldi, graças em parte à interpretação da atriz, possui um alto impacto emotivo nos telespectadores, demonstrando que o conhecimento da História não é apenas puramente intelectual - podemos utilizar a emoção para uma melhor interação dos alunos e do público em geral com nossas noções de identidade, de passado, memória e patrimônio.


Vídeo de ação de Living History sobre Escandinávia Medieval na UFPB em 2016

Outros exemplos brasileiros de aplicação do Living History são as diversas atividades da Sociedade História Destherrense, envolvida especialmente na recriação de cenas de Florianópolis oitocentista, além da oferta de cursos e oficinas envolvendo a técnica e abertas ao público em geral.



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Ação de Living History na Associação Comercial de Industrial de Florianópolis em 2015, efetuada pela Sociedade Histórica Destherrense


O tipo de prática do Living History mais comum no Brasil são as reproduções de combates e lutas medievais, tanto da Era Viking quanto do período feudal em geral, efetuadas pelas dezenas de equipes reconstrucionistas, a exemplo dos grupos Hednir e Vestanspjǫr Viking Reenactment. Futuramente, realizaremos uma extensa e detalhada matéria sobre os grupos reconstrucionistas nórdicos em atuação no Brasil.

Outras técnicas do Living History aplicadas ao medievo ainda são pouco realizadas em nosso país, como ações biográficas, reproduções de cenas literárias, reconstituições de episódios e acontecimentos históricos, apresentações de dramatizações, entre outras.

A poucos dias de ministrar uma oficina de Living History aplicada à Escandinávia Medieval em dois eventos na UFPB, a professora Luciana de Campos concedeu uma pequena entrevista, onde desenvolve algumas noções sobre o tema:



O que é “living history”?
Luciana de Campos - O living history ou, na tradução literal “história viva” é uma atividade que incorpora ferramentas históricas, com vestuário adequado à época que se está reconstituindo, objetos cotidianos como pratos, talheres e em alguns casos até a alimentação. As atividades consistem em uma apresentação interativa – com os componentes do grupo reconstrucionista e o público que assiste à ação - e pretende proporcionar aos dar observadores e participantes uma sensação de “volta no tempo”. A “história viva” em muitos casos, incorpora, uma encenação histórica, como, por exemplo, batalhas da Guerra da Secessão ou da Idade Média, uma ferraria nórdica, banquetes renascentistas e pic-nics da era vitorianas. A história viva pode e deve ser utilizada como mais uma ferramenta educacional para se compreender a História nos seus mais diversos aspectos seja da vida cotidiana, da cultura material, das crenças e dos diversos relacionamentos interpessoais. Ela pode e deve ser utilizada em escolas, museus, locais históricos para apresentar aos alunos e também ao público em geral que a História e toda a cultura material que a compõe - e aqui podemos citar novamente as roupas, os passatempos, a comida e o artesanato, - possuíram um sentido específico na vida cotidiana de um determinado período da história.
Quais as suas finalidades e quais as suas aplicações para o ensino, pesquisa e extensão?
Luciana de Campos - Em tempos cibernéticos onde fazer com que os alunos – desde a pré-escola até a pós-graduação – se mantenham atentos e interessados nas aulas tem se tornado um grande desafio. Os museus parecem ter saído do gosto e muitos professores e alunos acabam tendo uma visão errônea desses locais os confundindo com um mero depósito de velharias quando os museus tem que ser vistos como espaços educacionais e culturais fundamentais! As ações de living history nesses locais tem se tornado mais frequentes o que torna a relação ensino-aprendizagem mais dinâmica, desafiadora e instigante! Além de ser muito mais atrativa! Basta conferir a ação que o Museu Rijksmuseum fez para promover a visitação utilizando o quadro “Ronda Noturna” de Rembrant. Para o ensino o LV ajuda não só no aprendizado de História mas envolve a Geografia, a Antropolgia, a Física, a Química e a Matemática pois os cálculos eram essenciais para a confecção das roupas, a compra de mantimentos. Enfim o LV possui uma aplicação multidisciplinar! Nessa questão do ensino já está envolvida a extensão pois os museus os marcos históricos de cada cidade com as ações do LV transformam-se em salas de aula onde todos aprendem de uma maneira diferente e divertida mostrando que a aprendizagem precisa extrapolar os muros da escola! No que diz respeito à pesquisa o LV proporciona um campo excelente para a pesquisa: pois para a realização da ação é preciso muita pesquisa para a confecção das roupas, da utilização dos objetos, da elaboração dos pratos que poderão ser consumidos. A pesquisa portando é a melhor aliada do LV e lhe confere legitimidade.
Quais são as atividades de recriação do Living History nos Estados Unidos e na Europa?
Luciana de Campos - Nos Estados Unidos há grupos que se dedicam a reconstituir batalhas da Guerra da Secessão e também as batalhas travadas contra os ingleses durante a guerra de independência. Mas também há grupos dedicados exclusivamente as conquista do oeste com recriações de cidades, os saloons, os duelos e há também aqueles que de dedicam a reconstituir a vida na época da colonização na Nova Inglaterra. Já na Europa os grupos estão muito focados na Idade Média - veja o sucesso que feiras medievais fazem em muitos países como a França e a Alemanha. A Escandinávia possui vários festivais e feiras dedicadas exclusivamente à cultura nórdica recriando inclusive povoados que existiram na Suécia e em Gotland por exemplo.
Como o Living History pode auxiliar na divulgação dos estudos nórdicos no Brasil?
Luciana de Campos - As ações de LV estão crescendo no Brasil, felizmente e muitas delas dedicam-se justamente as recriações e reconstituições nórdicas. A grande maioria ainda é feita por pessoas não ligadas ao meio acadêmico o que é bom pois mostra que há interesse do público e que há pessoas dedicadas à pesquisa. Por outro lado já começa a despontar um interesse de acadêmicos pelo LV e finalmente começam a enxergá-lo como algo que precisa ser visto com seriedade pois ele envolve muita pesquisa feita com seriedade e rigor. A única ressalva que faço é a falta de comunicação e um estreitamento maior entre esse dois grupos, pois parece existir um fosse entre eles e uma certa relutância em uma aproximação. E isso é muito ruim para ambos! Os acadêmicos que apoiam e enxergam no LV uma ferramenta utilíssima para o ensino-aprendizado de História tem muito a contribuir com o grupo dos entusiastas assim como esse grupo tem muito a colaborar com a sua experiência e com as suas pesquisas. Acredito que futuramente possa realmente existir essa colaboração e parceria e que nenhum dos dois grupos mantenha mais essa postura de domínio de território pois o conhecimento deve ser compartilhado cada vez mais!