O grupo interinstitucional NEVE tem como principal objetivo o estudo e a divulgação da História e cultura da Escandinávia Medieval, em especial da Era Viking, por meio de reuniões, organização de eventos, publicações e divulgações em periódicos e internet. Conta com a colaboração de professores, pós-graduandos e graduandos de diversas universidades brasileiras, além de colaboradores estrangeiros. Filiado à ABHR, VIVARIUM e ABREM. Registrado no CNPQ. Contato: neveufpb@yahoo.com.br

terça-feira, 22 de novembro de 2016

Comida na Era Viking: entrevista com o novo colaborador estrangeiro do NEVE

 
Daniel Serra, o mais novo colaborador estrangeiro do NEVE, atualmente é um dos maiores especialistas em alimentação da Era Viking. Nascido em Malmö, Suécia, é doutor em Arqueologia pela Universidade de Lund, com uma tese sobre alimentação na Era Viking.
 




Como arqueólogo experimental, desde 2010 realiza consultoria para os museus Lofotr, na Noruega, e Glimmingehus, da Suécia. Também vem realizando cursos, palestras, oficinas e consultorias para restaurantes, televisão, jornais e festivais reconstrucionistas da Europa. Em 2013 publicou o livro An Early Meal - a Viking Age Cookbook & Culinary Odyssey (Chronocopia Publishing), junto com Hanna Tunberg, que se tornou uma obra de referência no tema.

https://www.amazon.co.uk/Early-Meal-Cookbook-Culinary-Odyssey/dp/9198105604/ref=sr_1_1?ie=UTF8&qid=1479813359&sr=8-1&keywords=An+Early+Meal%3A+A+Viking+Age+Cookbook+%26+Culinary+Odyssey.

Atualmente Daniel Serra está realizando acessoria para experimentos gastroarqueológicos do grupo NEVE, coordenados pela professora Luciana de Campos: montagem de fornos e cozinhas ao ar livre, além de processos de defumação de carnes da Alta Idade Média Nórdica a serem reproduzidos no Brasil.

A entrevista a seguir foi realizada em 2015 por James Wiener para a Ancient History Encyclopedia, do qual traduzimos alguns trechos mais significativos.

- O que estimulou o seu interesse pela cultura e comida nórdica da Era Viking? Se eu me recordo, você também tem interesse nas antigas receitas romanas de Apicius.
Daniel Serra: Meu interesse em alimentos históricos surgiu quando comecei meus estudos universitários em Arqueologia clássica. Como eu sempre fui interessado em boa comida, eu estava muito curioso em saber como era a comida nos períodos que estudei. Assim começando com as receitas de Apicius e Cato, eu tentei reconstruir a comida e os gostos dos romanos antigos. Como mudei para Arqueologia Medieval, era natural mover meu interesse para a comida e as receitas que permaneceram dessa época. Neste ponto, não era apenas uma curiosidade culinária, mas sim uma ferramenta para ensinar ou informar as pessoas sobre a Arqueologia. Acho que uma boa maneira de abordar a História é através de todos os nossos sentidos, e o gosto alimentar é uma excelente maneira de criar uma melhor compreensão e imersão para dentro de uma certo período. Junto com minha co-autora, Hanna Tunberg, nós começamos uma pequena empresa de reconstituição medieval.
Eu inicialmente usei muitos textos anglo-saxões. Sendo contemporâneos com o período que estávamos investigando, eles tem muito a dizer sobre as práticas na época, mesmo que alguns dos ingredientes referenciados não tenham sido encontrados na Escandinávia. Outras descobertas sobre métodos de cozinhar e maneiras de pensar sobre comida poderiam ser encontradas em muitas receitas medievais... As sagas islandesas e as Eddas obviamente forneceram muita inspiração também...
 
 
 
Ao servir comida e falar sobre isso para uma grande variedade de pessoas, fiquei fascinado de que maneira a comida serve como um veículo de expressão cultural e social: o consumo de diferentes alimentos dependendo da classe ou do papel na sociedade, como os alimentos podem ser usados ​​para excluir ou incluir pessoas, e como se podem expressar uma identidade através dos alimentos. No entanto, como a maioria das receitas medievais sobreviventes da época refletiam um "menu de classe alta", eu me senti um pouco limitado e comecei a procurar maneiras de abordar o que as pessoas comuns comiam.
Voltei para uma abordagem arqueológica mais experimental. A mesma aproximação era naturalmente possível quando passei aos alimentos da Era Viking, porque este era o período que a maioria dos acadêmicos vinha considerado o alimento de um ponto de vista muito econômico. Paralelamente aos meus estudos mais teóricos, eu também tentei recriar sabores e pratos para os propósitos de Arqueologia experimental, bem como para a Era Viking e com grupos de reconstrucionismo medievais também.
 
- O que você considera que é o maior equívoco que as pessoas têm sobre a comida e da bebida da Era Viking? Eu suspeito que muitos seriam surpreendidos pela variação sazonal e regional dos alimentos e pelos sabores encontrados em uma refeição mais complexa.
 
Daniel Serra: Eu diria que a carne, hidromel, cogumelos e florestas nublam a imaginação popular. Uma imagem bastante comum da comida nórdica da Era Viking é que ela era somente constituida por hidromel e carne, mais ou menos. Na série popular Vikings - produzida pelo History Channel (que não é tão exata em geral) - as cenas de alimentos muitas vezes apresentam peças grelhadas de carne que os protagonistas comem muito. Carnes teria sido aproveitadas em festivais e comemorações, servida com mingau, nabos etc., em vez de algo que teria sido servido apenas por si. Mesmo que a evidência arqueológica seja escassa, algumas das sagas islandesas parecem indicar que as refeições eram eventos bem mais modestos do que muitos acreditariam. Há mesmo descrições sobre como as pessoas lavavam as mãos antes e entre as refeições.
O hidromel certamente teria sido uma bebida usada em festas, mas a bebida mais comum provavelmente foi a cerveja. Na época, não havia nada excepcionalmente "escandinavo" sobre hidromel. As pessoas também consumiam cerveja inglesa. Cogumelos de vez em quando, talvez no contexto de ser uma forma de induzir a raiva alienada do berserker, mas este certamente é um equívoco do século XVIII, que perdura até hoje. Na verdade, nada indica o consumo de cogumelos, nem em textos nem em evidências arqueológicas.


 
Temos também uma noção muito romântica do papel e do uso das florestas nos diferentes passados históricos, e muitos ficam bastante surpresos quando digo que apenas cerca de um por cento dos restos de ossos encontrados provêm de animais caçados. Na verdade, quando se olha para o material arqueológico, a caça e a exploração das florestas parecem ser bastante limitadas. Mas como você diz, também ocorriam variações sazonais e, até certo ponto, os sabores vão contrariar muitas crenças errôneas e populares.
 
- Eu sou inclinado a perceber que os ingredientes encontrados durante toda uma refeição mais complexa me parece muito familiar com o que come um homem com laços ancestrais fortes da Suécia. Seria justo dizer que a cozinha escandinava contemporânea deve muito aos antigos povos nórdicos, Sr. Serra? Em caso afirmativo, podemos definir algum tipo de continuidade cultural?
Daniel Serra: Em vez da continuidade cultural, muitas das coisas que reconhecemos são baseadas na flora e fauna locais na Escandinávia. Embora os pratos tradicionais usem muitos dos mesmos ingredientes, as composições e técnicas podem variar e mudam significativamente.
Nós escolhemos deliberadamente não usar a culinária escandinava tradicional como ponto de partida, pois há quase 800 anos de diferença entre a cozinha tradicional escandinava e a comida da Era Viking. Várias influências culinárias entraram na cozinha escandinava e começaram a transformá-lo de dentro durante o período medieval.


 
 
Sites sobre alimentação nórdica da Era Viking coordenados por Daniel Serra:
 
Memento (em sueco)
Eldrminer (em inglês)