O grupo interinstitucional NEVE tem como principal objetivo o estudo e a divulgação da História e cultura da Escandinávia Medieval, em especial da Era Viking, por meio de reuniões, organização de eventos, publicações e divulgações em periódicos e internet. Conta com a colaboração de professores, pós-graduandos e graduandos de diversas universidades brasileiras, além de colaboradores estrangeiros. Filiado à ABHR (Associação Brasileira de História das Religiões). Registrado no CNPQ. Contato: neveufpb@yahoo.com.br

segunda-feira, 30 de maio de 2016

GRUPO NEVE COMPLETA SEIS ANOS



Um momento particularmente importante nos estudos nórdicos brasileiros foi a criação em junho de 2010 do Núcleo de Estudos Vikings e Escandinavos (NEVE), um grupo acadêmico interinstitucional que abarca pesquisadores de diferentes estados e de áreas diferentes, mas essencialmente ligados ao campo da História e das Letras. Em 2012 o grupo NEVE promoveu duas importantes façanhas na área: a organização do primeiro evento dedicado exclusivamente ao estudo da Escandinávia Medieval e a criação de um periódico especializado no mesmo tema. 

O I Colóquio de Estudos Vikings e Escandinavos, realizado na UFF em outubro de 2012, congregou os investigadores a repensarem seus temas e articulando-se nas possibilidades de avanço e maiores inserções na academia nacional. O boletim Notícias Asgardianas (ACESSE AQUI) teve o mérito de propagar ainda mais as novas pesquisas, os novos debates e a emergente geração de estudantes e pós-graduandos dedicados exclusivamente ao estudo da fé nórdica. Neste sentido, a edição número 9, com o dossiê Ritos e crenças  9 (ACESSE AQUI), levou ao público algumas das mais recentes metodologias de investigação, além das tradicionais, como a análise de fontes literárias e folclóricas. E também os estudos apresentaram temas como as mitologias astronômicas e a cultura material da religiosidade, sejam em suas variedades pré-cristãs (como os mitos) ou na emergente perspectiva do hibridismo cultural, aplicado ao período de transições religiosas na Escandinávia.
Outra edição do boletim Notícias Asgardianas (dossiê: Bruxaria e feitiçaria nórdica, edição 6, 2014, ACESSE AQUI), também foi um interessante espaço para um assunto muito popular nos nossos dias, mas que ainda merece muito pouca atenção dos acadêmicos: as crenças envolvendo as praticantes de magia da Escandinávia, cujas representações e discursos foram perpetuados tanto pelo discurso teológico e da Igreja, como nas manifestações artísticas, literárias e folclóricas do final do medievo. 

https://agbook.com.br/book/53308--Poder_e_Sociedade_na_Noruega_Medieval

Além de traduções de estudos estrangeiros, o dossiê contou com a participação de pesquisas brasileiras, enfatizando de um lado as concepções clericais (como: Diabolismo e Bruxaria na Escandinávia), quanto as manifestações populares sobre o tema (Mandrágora; Gatos e bruxaria nórdica). Percebe-se nitidamente que a maioria dos estudos deste dossiê estavam preocupados em debater as idéias culturalistas de Carlo Ginzburg sobre um modelo de feitiçaria com bases xamanistas euro-asiáticas, ao mesmo tempo que dialogaram com a obra do mais importante estudioso do tema na Escandinávia, o norte-americano Stephen Mitchell. 




Mas certamente o momento mais significativo da produção desta época foi a publicação do Dicionário de Mitologia Nórdica: símbolos, mitos e ritos (ACESSE AQUI), coordenado pelo grupo NEVE e que contou com a participação de 22 pesquisadores. Além do conteúdo temático, organizado em forma alfabética e contendo mais de 220 verbetes (num total de 581 páginas), a obra possui referências bibliográficas e conteúdos que apontam tanto para uma influência dos clássicos dos estudos nórdicos, como a sua crítica e as mais recentes inovações teóricas e metodológicas. Assim, percebemos Georges Dumézil sendo citado em alguns verbetes (como Balder; Ases e Vanes), mas também é criticado em outros (Tripartição no mundo nórdico); a fenomenologia, o simbolismo e o comparativismo clássico perpassam alguns verbetes (como Mitologia Nórdica), mas são igualmente questionados criticamente no verbete Arquétipos escandinavos. Essa pluralidade teórica apresenta-se de forma positiva aos leitores e pesquisadores iniciantes, porque demonstra tanto a existência de um constante debate, como o direcionar de novos caminhos reflexivos. Outra inovação da obra foi a inclusão de diversas fontes primárias, traduzidas diretamente das diversas linguagens medievais, a exemplo dos poemas éddicos Grímnismál e Rúnatal, o Encantamento das Nove ervas, a Oração de Wessobrunn, o Poema rúnico anglo-saxão, o poema Darraðarljóð e diversas inscrições rúnicas.




Mais recentemente, o grupo NEVE foi convidado a organizar um dossiê para a Revista Brasileira de História das Religiões, o que demonstra o avanço e a inserção desta área no atual panorama das investigações acadêmicas sobre religiões. A edição número 23 (Mito e Religiosidade Nórdica, ACESSE AQUI), publicada em outubro de 2015, traz algumas pesquisas de ponta sobre diversos temas em língua portuguesa, totalmente em consonância com a produção internacional. Percebemos um maior nível de amadurecimento das pesquisas, mas também detectamos que a área tem ainda inúmeras possibilidades de investigação e é um espaço importante para futuras gerações de pesquisadores do fenômeno religioso. Entre os destaques desta edição, o artigo do historiador Hélio Pires (Vaningi: O javali e a identidade dos Vanir), apresenta um original estudo sobre o simbolismo do javali entre os nórdicos pré-cristãos, ao mesmo tempo em que critica o estruturalismo dumeziliano e as abordagens envolvendo a tripartição na religiosidade germano-escandinava. O estudo constitui uma grande virada nas investigações teóricas sobre a natureza e as funções das divindades no mundo pré-cristão, mas também constitui um excelente modelo de interpretação das fontes primárias e do papel do historiador e do mitólogo.

Outro importante estudo de base teórica e metodológica é Discutindo o Xamanismo no Mito e na Literatura Escandinava: uma breve revisão historiográfica, dos historiadores Maria Emília Monteiro Porto (UFRN) e Pablo Gomes de Miranda (UFRN). Nele, os autores realizam uma sistematização dos debates conceituais sobre o fenômeno do xamanismo, especialmente aplicado para a área escandinava pré-cristã e na literatura medieval. Uma das principais críticas no artigo é sobre a natureza das práticas xamânicas nas fontes primárias e de sua inserção como conceito nas representações modernas.

Por sua vez Luciana de Campos apresenta a pesquisa A sacralidade que vem das taças: o uso de bebidas no Mito e na Literatura Nórdica Medieval, um tema pouco explorado em nosso país: a questão do uso de bebidas em rituais religiosos e sua inclusão nos mitos literários. Outros estudos, como os de André de Oliveira, Munir Ayoub, José Fernandes, Ricardo Menezes, Álvaro Bragança Júnior e Andressa Ferreira, também realizam excelentes contribuições, tanto com estudos de casos extremamente originais, quanto apontam novos referenciais de análise para o corpus de fontes medievais.




Também recentemente impresso, o novo livro do historiador Johnni Langer, Na trilha dos vikings: estudos de religiosidade nórdica (ACESSE AQUI), vem complementar o panorama mais atual de publicações. Trata-se de outra coletânea de artigos, desta vez referente ao período de 2006 a 2010, nos periódicos Signum, RBHR e Brathair. Langer apesar de dar continuidade aos estudos de mitologia nórdica (O mito do dragão), já apresenta outras inovações, como nos diversos estudos sobre as manifestações mágicas na sociedade escandinava (O galdr; O seidr), ou na investigação do processo de conversão ao cristianismo (Pagãos e cristãos). A maior parte destes estudos utilizou as sagas islandesas, ao mesmo tempo em que também percebemos uma maior influência de autores estrangeiros dedicados à perspectiva culturalista, da literatura oral e da religiosidade nórdica, aqui entendida como um processo extremamente dinâmico e sujeito a constantes variações temporais e geográficas. Entre os autores citados, destacamos Peter Schjødt, John Mckinell, Thomas Dubois e Lars Lönnroth.

O futuro das pesquisas no Brasil continua sendo muito promissor.