O grupo interinstitucional NEVE tem como principal objetivo o estudo e a divulgação da História e cultura da Escandinávia Medieval, em especial da Era Viking, por meio de reuniões, organização de eventos, publicações e divulgações em periódicos e internet. Conta com a colaboração de professores, pós-graduandos e graduandos de diversas universidades brasileiras, além de colaboradores estrangeiros. Filiado ao The Northern Women’s Art Collaborative (Universidade de Brown, EUA) e
à ABHR (Associação Brasileira de História das Religiões). Vinculado ao Programa de Pós Graduação em Ciências das Religiões da Universidade Federal da Paraíba. Registrado no Diretório de Grupos de Pesquisa do CNPQ. Contato: neveufpb@yahoo.com.br


terça-feira, 23 de junho de 2015

DIETA VIKING: O EMAGRECIMENTO QUE VEIO DO FRIO

Profa. Ms. Luciana de Campos (NEVE/CEIA)
                                                                                                                                                 fadacelta@yahoo.com.br

As revistas brasileiras especializadas em dietas ganharam nos últimos meses uma “nova” dieta que vem conquistando espaço e visibilidade e também novos adeptos: a dieta viking. Com esse sugestivo nome as revistas estão montando cardápios com cinco refeições diárias garantindo sucesso na eliminação do excesso de peso. A proposta da dieta viking que se encontra nas mais diversas revistas de dietas de emagrecimento e exercícios físicos – das mais sofisticadas até as mais populares – é uma adaptação da alimentação contemporânea da Escandinávia.

 
Apresentando um cardápio rico em peixes, frutas vermelhas, legumes, azeite de oliva e frutas secas a dieta promete além de eliminar os tão indesejados quilos a mais, prolongar a vida, combater a manifestação do diabetes tipo 2, pressão alta,  melhorar o sono, a memorização, e principalmente não engordar novamente! O mais interessante em todas as matérias publicadas são as adaptações feitas para a dieta viking se adequar ao paladar e ao orçamento brasileiro, já que peixes como o salmão e o arenque são as fontes de proteínas principais na dieta comum da Escandinávia. Por aqui esses peixes são caros e não são encontrados facilmente em todos os supermercados. Além do peixe há também as frutas como os mirtilos, as amoras e framboesas negras, facilmente encontradas frescas em toda a Escandinávia, já, por aqui só as encontramos congeladas e, muitas vezes os preços são altos o que inviabiliza o seu consumo diário como recomendam os cardápios apresentados nas matérias das revistas.

No decorrer da matéria observa-se que vegetais como cenouras, abacate, brócolis, arroz integral, batatas e agrião tem o seu consumo recomendado mostrando todos os benefícios que estes alimentos proporcionavam aos “vikings”. A maioria desses vegetais não eram sequer conhecidos na Era Viking, pois são originários da Ásia e da América do Sul. O que realmente chama a atenção no decorrer da leitura da matéria -onde são consultados especialistas em nutrição e dietética bem como médicos - é que todos, sem exceção explicam que é graças a dieta viking que os escandinavos têm uma das melhores qualidades de vida do mundo!

Uma consulta a algumas obras que analisam a vida cotidiana e privilegiam a alimentação na Era Viking, como por exemplo A vida cotidiana dos vikings de Régis Boyer, nos mostram que durante os gelados meses de inverno a alimentação era muito pobre em vegetais: as carnes salgadas, a cerveja e algumas oleaginosas compunham praticamente todo o cardápio. Os alimentos frescos incluindo os vegetais (espinafres, beterrabas, nabos selvagens e urtigas) e as frutas mirtilos, framboesas vermelhas e negras, amoras, peras e maçãs e os cereais centeio, aveia, cevada e trigo eram amplamente consumidos a partir do início do degelo da Primavera e o seu consumo era estendido por todo o Verão o que também acontecia com as carnes de peixe. O que não era processado –defumado ou salgado – para o Inverno era consumido fresco. Também consumiam o leite e seus derivados: a manteiga, e o queijo além do skir (espécie de queijo fresco cremoso que até hoje é feito em casa e muito consumido em toda a Escandinávia). A alimentação era bem variada e, portanto balanceada para os padrões da época onde a abundância de alimentos dependia exclusivamente do clima e a fome era uma sombra constante na vida de todas as comunidades.

A “dieta viking” que vemos hoje estampadas nas revistas de emagrecimento pouco tem a ver com a dieta dos escandinavos medievais, principalmente no que diz respeito às adaptações no cardápio diário e também as quantidades: vale ressaltar que os líderes eram admirados pela sua coragem, bravura, habilidades marciais, mas também pelos excessos à mesa: comer e beber grandes quantidades era um sinal de virilidade, força e liderança!

Em tempos de comedimentos à mesa, de dietas que prometem uma vida longa e com o corpo perfeito nem os vikings permaneceram ilesos: ganharam também notoriedade por “comerem bem” e legarem à posteridade uma dieta altamente recomendável.

Realmente, os vikings estão na moda!

Bibliografia:
 
CAMPOS, Luciana de. Mitos alimentares nórdicos. In: LANGER, Johnni (Org.). Dicionário de Mitologia Nórdica. São Paulo: Hedra, 2015, pp. 313-317.

 CAMPOS, Luciana. A alimentação na Escandinávia da Era Viking. Notícias Asgardianas n. 2, 2012. Disponível aqui.

CAMPOS, Luciana de. Um banquete para Heimdall: uma análise da alimentação viking na Rígstula, História, imagem e narrativas 12, 2011. Disponível aqui. 

CAMPOS, Luciana de. Brindando aos deuses: representações de bebidas na Era Viking. Revista de História Comparada 6, 2012. Disponível aqui.