O grupo interinstitucional NEVE tem como principal objetivo o estudo e a divulgação da História e cultura da Escandinávia Medieval, em especial da Era Viking, por meio de reuniões, organização de eventos, publicações e divulgações em periódicos e internet.
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segunda-feira, 25 de junho de 2018

Representações da feiticeira nórdica na hq Thorgal

 
Representações da feiticeira nórdica nos quadrinhos de Thorgal

 
Hendrik Lúcio Oliveira Van Dingenen
 
Graduando em Ciências das Religiões pela UFPB

Objetivo no presente artigo analisar algumas representações da mulher nórdica da Era Viking presentes no quadrinho europeu. Para alcançar esse entendimento realizo a comparação histórica entre aspectos da Era Viking relativos à mulher e sua representação como feiticeira em Thorgal, personagem criado em 1977 pelo belga Jean van Hamme e o polonês Grzgorz Rosinski, atualmente publicado pela Editora Lombard. Trata-se de análise da primeira edição de Thorgal, intitulado "A Feiticeira Traída".
Para discutir o tema da mulher e seu papel na sociedade, van Hamme nos informa, em entrevista no Youtube, que buscou na "mitologia viking" por uma "identidade comum" aos "povos do Norte" europeu (GÉRARD, 2018). A pertinência dessa abordagem foi observada pelo Prof. Dr. Johnni Langer na obra do compositor alemão Richard Wagner, 1813-1883, onde o sincretismo de mitologias "do Norte" é base para "uma reinterpretação mítica de um passado imemorial, servindo aos anseios de uma coletividade que lutava para conseguir uma unidade tanto política quanto cultural" (LANGER, 2001). Em Thorgal, esse "mínimo denominador mitológico comum" é utilizado por van Hamme para discutir as possibilidades da mulher na sociedade moderna, dentro do contexto de censura e repressão polonês (GÉRARD, 2018), onde os quadrinhos eram produzidos apenas para humor e propaganda (BORODO, 2014).

 
 
Capa da edição brasileira da hq Thorgal "A feiticeira traída", publicada pela editora VHD na dédcada de 1980.
 
 
Tema popular, a figura do viking nos quadrinhos franco-belgas segue o ideal clássico para o bárbaro – bruto, cruel, pagão, utilizando capacetes com chifres - (LANGER, 2002) e era tão recorrente que Rosinski, com medo de saturação de mercado, convence van Hamme a não utilizar a figura de Ragnar Lothbrok, o mítico rei viking, como inspiração para seu personagem principal. Porém van Hamme não quis deixar de fazer seu cenário em um contexto "viking" e acabou buscando na deidade nórdica mais popular (Thor) a inspiração para Thorgal (GÉRARD, 2002), pensado como uma espécie de rei iluminado que conduziria seu povo "bruto e cruel", os "vikings" (GÉRARD, 2018). Em edições posteriores, esse ideal monárquico é abandonado e Thorgal passa a ser retratado como um pacifista em busca de uma vida rural ideal com sua companheira e filhos, mas que por uma razão ou outra, encontra-se em diversas aventuras por um mundo repleto de mágica e fantasia. O caso é que Thorgal deixa de ser o rei messiânico e passa a ser o homem moderno em busca de seu lugar no mundo.
 
Inicialmente, vemos Thorgal sentenciado à morte pelo chefe viking Gandalf-o-louco, por sua pretensão em casar-se com Aaricia, filha de Gandalf. O escaldo Thorgal, artista sem prestígio ou status social, parece mais associado com a representação do bardo celta conforme a popular figura de Cacofonix, imortalizada em Asterix (1959). Porém, aponta o professor Langer em seu Dicionário de Mitologia Nórdica (2015), o escaldo possuía uma função social de prestígio na cultura nórdica, pois era o historiador e transmissor dos atributos escandinavos, como coragem, bravura e ousadia. Dono de boa memória e conhecedor das tradições, o escaldo relatava para a comunidade os poemas, os contos, o folclore e as narrativas mítico-históricas do seu povo e, claro, de seus chefes (LANGER, 2015).
 
 
 Cena do quadrinho "A feiticeira traída" com os personagens Thorgal e Slive.
 
 
Escaldo desgraçado, Thorgal é salvo pela feiticeira Slive, acompanhada de um lobo, que informa o herói que precisará dele para se vingar de Gandalf por mantê-la prisioneira para forçar um casamento, sempre recusado. Para tal, Thorgal deve roubar os Anéis de Freyr, que subjugarão Galdalf. Anéis e lobo representam objetos mágicos e animal totêmico, e compõem elementos da feiticeira nórdica enquanto "seidr", uma praticante de determinadas mágicas rurais que existiram na Era Viking, caracterizadas pelo uso de objetos mágicos e animais protetores (LANGER, 2015). "Seidr" significa laço, corda, cinturão, símbolos relacionados ao controle (LANGER, 2015). Mas qual a relação possível entre a mulher nórdica da Era Viking e a seidr em Thorgal? Qual a relação, na Era Viking, entre rito (mito) e poder feminino?
 
 
A feiticeira Slive
 
 
O "poder", na feiticeira de Thorgal, parece ser, em primeira instância, derivar de sua condição "mágica" (LANGER, 2015), de sua capacidade de utilizar seus conhecimentos para manipular, controlar, seu entorno e as pessoas. Porém sua recusa em casar-se com Gandalf indica condição de igualdade política em relação ao seu pretendente que não pode ser relacionada à sua condição de feiticeira, cujas práticas eram restritas ao uso popular e rural na sociedade nórdica. A recusa a traz mais perto da figura do "gydja", termo sem equivalência portuguesa que indica a responsabilidade ritualística pertinente ao rei ou chefe local (LANGER, 2015). De fato, em determinado momento da trama, a personagem revela ser uma poderosa e rica "rainha da ilha dos mares gelados", combinando as duas características da personagem e invertendo, com os anéis, o papel masculino e feminino do casamento forçado.
Para entender as possibilidades de poder da mulher na sociedade da Era Viking, patriarcal, recorro a tese de mestrado de Cristina Spatacean (2006) que - citando estudos nas Sagas da Família, narrativas medievais sobre o mundo nórdico da Era Viking - informa que, embora alijada das decisões políticas e judiciais, a mulher nórdica detinha direito à propriedade e ao divórcio e viúvas podiam chegar a posições de autoridade (SPATACEAN, 2006). Langer nos confirma, dizendo que, "ao contrário das outras regiões europeias da época, as mulheres vikings gozavam de ampla liberdade. Podiam possuir terras, bens materiais, cuidar do cultivo das fazendas e comerciar. Eram elas que negociavam com os mercadores visitantes, no momento em que os maridos estivessem em expedições ou em guerra" (LANGER, 2001).
Spatacean informa que, embora marginalizadas do processo político e judicial, as mulheres tinham autoridade reconhecida para julgar a honra do homem, valor importante na cultura nórdica, o que conferia à mulher poder sobre a estrutura patriarcal (SPATACEAN, 2006), e cita como evidência de prestígio feminino o aumento do número e tamanho de túmulos dedicados a mulheres entre os séculos VII e XIX, "sugerindo que mais mulheres ganharam status mais alto a medida que as áreas cresceram em população" (SPATACEAN, 2006).
Segundo Spatacean, a mulher nórdica era responsável por importantes cultos no ciclo ritualístico nórdico, como os da fertilidade, onde a autora menciona o "álfá-blot", sacrifício aos elfos de participação exclusiva de mulheres; a mulher nórdica também estava responsável pela relação com os espíritos da terra, protetores das localidades. Por fim, era também responsável por rituais de nascimento e, possivelmente, de morte (SPATACEAN, 2006).
Concluo observando que a "Feiticeira Traída" retrata a figura da mulher nórdica – e moderna, conforme pretendia van Hamme - enquanto ator social com possibilidades de ascensão ao poder político, exclusivo do homem. Tal é possível via atuação em áreas como comércio, gestão de propriedade e práticas relacionadas ao controle mágico (feitiçaria), bem como pela prerrogativa de testemunho da honra do homem, execução de ritos de fertilidade e nascimento. Essas possibilidades culturais de realização pessoal impactariam nas relações de gênero na sociedade patriarcal nórdica, possibilitando à mulher alcançar em determinadas situações um status social próximo ao do homem.

 
Referências bibliográficas:

CAMPOS, Luciana de. Mulheres. In: LANGER, Johnni (org.). Dicionário de História e Cultura da Era Viking. São Paulo: Hedra, pp. 513-517.
 
BORODO, Michal. The Sorceress Betrayed: Comics crossing cultures and changing accuracy standards. Uniwersytet Kazimierza Wielkiego. Księgarnia Akademicka, Polônia: 2014.
 
GERARD, Charles. Jean Van Hamme raconte le grand parcours de Thorgal. mai. 2018. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=EDR31gHdS0M>. Acesso em: mai. 31.
 
LANGER, Johnni. Vikings nos quadrinhos. In: LANGER, Johnni (org.). Dicionário de História e Cultura da Era Viking. São Paulo: Hedra, 2018, pp. 775-782.
 
LANGER, Johnni (org.). Dicionário de Mitologia Nórdica: símbolos, mitos e ritos. Ed. Hedra. São Paulo, 2015. p. 166-167.

LANGER, Johnni. Os Vikings e o Estereótipo do Bárbaro no Ensino de História. Revista História & Ensino, Londrina, v. 8, p. 85-98, out. 2002.
 
LANGER, Johnni; SANTOS, Sérgio Ferreira dos. Fúria Odínica: a criação da imagem oitocentista sobre os vikings. Vária História, Belo Horizonte, nº 25, p. 214-230, jul. 2001.

SPATACEAN, Cristina. Women in the Viking Age: death, life after death and burial customs. Tese apresentada ao Centro de Estudos Viking e Medievais da Universidade de Oslo. Oslo: 2006.