O grupo interinstitucional NEVE tem como principal objetivo o estudo e a divulgação da História e cultura da Escandinávia Medieval, em especial da Era Viking, por meio de reuniões, organização de eventos, publicações e divulgações em periódicos e internet. Conta com a colaboração de professores, pós-graduandos e graduandos de diversas universidades brasileiras, além de colaboradores estrangeiros. Filiado ao The Northern Women’s Art Collaborative (Universidade de Brown, EUA) e
à ABHR (Associação Brasileira de História das Religiões). Vinculado ao Programa de Pós Graduação em Ciências das Religiões da Universidade Federal da Paraíba. Registrado no Diretório de Grupos de Pesquisa do CNPQ. Contato: neveufpb@yahoo.com.br


quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Jól: o solstício de inverno nórdico


 
JÓL (Verbete do Dicionário de Mitologia Nórdica)

Festival pagão comemorado durante o solstício de inverno na Escandinávia. Segundo Rudolf Simek, a coincidência temporal do festival fez com que os nomes para o mês de dezembro e janeiro fossem semelhantes: fruma jiuleis (gótico do século IV; giuli, anglo-saxão do século VIII) e também semelhantes ao nórdico antigo ýlir (em dinamarquês e em nórdico antigo jól; em sueco jul; em anglo-saxão geohol).

Para Régis Boyer os ritos cerimoniais envolvem a imolação de animais engordados para esse fim, oferecidos para as divindades da fertilidade-fecundidade, as dises ou aos elfos. O Jól nesse sentido também é denominado dísablot ou álfablót. O rito durava treze dias e era de importância fundamental para as regiões nórdicas durante o inverno – particularmente rude e longo, onde a vida deveria ser simbolicamente renovada. O Jól foi recuperado pelo cristianismo e substituído por Noël. A árvore de natal contemporânea remonta ao julgran nórdico (sueco: pinheiro do jul; norueguês: juletre), cuja origem seria a arvore cósmica de Yggdrasill, símbolo da vida e da fecundidade. Na tradição natalina, os bodes remeteriam a Thor, a árvore a Odin, o varrão a Freyr. James Frazer pontuou a celebrações envolvendo o sacrifício do varrão durante o solstício. Ainda segundo Boyer, outras reminiscências sugerem que o Jól foi uma grande festa sacrificial dos mortos ou do clã: teria sido o momento da passagem da horda selvagem de Odin. O banquete que tradicionalmente se executa nesta ocasião era destinado a criar laços entre os vivos e os mortos. Também neste momento seria celebrado o célebre til árs ok fridar (para um ano fecundo e para a paz, segundo o Gulathingslog 7), que fazia parte das prerrogativas do rei nórdico.
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Para o referencial de Rudolf Simek, o festival de Jól era essencialmente religioso e com um caráter de sacrifício para a fertilidade. Mas também Odin seria associado com o Jól, tendo o epíteto de Jólnir. Ainda segundo este pesquisador alemão, a associação entre culto aos mortos e veneração aos ancestrais durante o Jól é incerta, talvez provinda de sacrifícios do inverno durante a Idade do Bronze europeia.

As fontes islandesas cristãs descrevem o Yule pagão no referencial das celebrações cristãs que eles conheciam. Especialmente nas sagas, o Jól seria uma época para a atividade dos draugar. O draugr é um morto vivo que adquire vida após ter sido enterrado em um monte funerário e é um tema comum nas sagas islandesas (Eyrbyggja saga 63; Grettis saga 35). Para se conseguir sua morte definitiva, seria necessário o corte de sua cabeça e a queima do corpo. Por outro lado, as conexões com a caçada selvagem de Odin são relatadas no folclore. E o fato da bebedeira de Jól ser sinônimo para a celebração da festa, demonstra sua ligação com o antigo beber sacrificial. Em Snorri Sturluson o festival pagão é entendido completamente como o sacrifício de solstício de inverno, que contém a festa comunal. De outro lado, algumas fontes nórdicas não generalizam o Jól como uma festa comunal (e é neste referencial que Thomas DuBois o descreve, como um ritual limitado a certa família e alguns membros selecionados, presidido por uma mulher).

Terry Gunnel aponta a relação entre a palavra leikr (dramatização, ritual, jogos) com a época do Jól e em especial, com um ritual dedicado ao deus Freyr (Freys leikr, que também é um kenning para batalha na Ragnar saga Loðbrókar). Se de um lado temos o deus Freyr conectado à fertilidade e a guerra, o termo leikr também pode ser aplicado ao ritual, a atividade dramática e a jogos de crianças. Durante o Jól acontecem vários tipos de jogos (incluindo a glíma e o knattleir). James Frazer ainda recorda as celebrações envolvendo grandes festivais do fogo durante o Jól, sobrevivendo até os tempos modernos.

Johnni Langer

Ver também: Álfablót; Berserkir; Blót; Caçada selvagem; Paganismo nórdico.

Referências Bibliográficas:

BOYER, Régis. Jól: solstice d'hiver au grand Nord. Louvain 64, 1995, pp. 27-30.

FRAZER, James. The midwinter fire. The golden bough. New York: Dover, 2002, pp. 461-462, 636.

GUNNELL, Terry. Ritual leikar and drama. The Origins of Drama in Scandinavia. Cambridge: D. S. Brewer, 1995, pp. 24-36.

SIMEK, Rudolf. Yule. Dictionary of Northern Mythology. London: D.S. Brewer, 2007, pp. 379-380.

 
FONTE: DICIONÁRIO DE MITOLOGIA NÓRDICA: SÍMBOLOS, MITOS E RITOS. SÃO PAULO: HEDRA, 2015.