O grupo interinstitucional NEVE tem como principal objetivo o estudo e a divulgação da História e cultura da Escandinávia Medieval, em especial da Era Viking, por meio de reuniões, organização de eventos, publicações e divulgações em periódicos e internet.
Parceiro do LOFOTR VIKING MUSEUM (Noruega); Centre for Experimental Archaeology and Material Culture (Universidade de Dublin, Irlanda); The Northern Women’s Art Collaborative (Universidade de Brown, EUA), ABHR e PPPGCR-UFPB. Credenciado no CNPQ. Contato: neveufpb@yahoo.com.br

segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

O Bode de Natal na Tradição Escandinava

Julbocken, John Bauer (1912)



O Bode de Natal na Tradição Folclórica Escandinava

Pablo Gomes de Miranda

Doutorando em Ciências das Religiões pela UFPB

Membro do NEVE



            Em 2014, na ocasião do II Colóquio de Estudos Vikings e Escandinavos & I Ciclo de Pesquisas Medievais, o primeiro ocorrido na Universidade Federal da Paraíba – UFPB (o I Colóquio aconteceu na Universidade Fluminense – UFF), apresentei a comunicação “Mito e Xamanismo: a caçada selvagem nas baladas de Helgi Hundingsbani” onde argumentei que a tradição de narrativas míticas onde encontramos conexões com os relatos da Caçada Selvagem na Escandinávia, ela que ocorre sempre em torno do Natal, pode estar associada a elementos de drama nos poemas éddicos e em alguns contos e sagas islandesas.

            Durante a apresentação foram exibidas fotografias do início do século XX de pessoas vestidas com peles de Bodes e cabeças articuladas a fim de imitar o animal durante uma procissão que aconteceria de granja em granja na Noruega (a tradição também foi muito forte na Dinamarca) onde o Bode dançaria e deveria ser bem cuidado pelos anfitriões ou correriam o risco de ter a casa bagunçada por aquele animal. Ainda mais, nas prospecções feitas na Noruega e Suécia, encontramos uma divisão muito clara entre as representações dos Bodes, marcados pela atuação através da figura mascarada, e as representações das Cabras, enquanto máscaras articuladas erguidas sobre um mastro. Ambos deveriam ser recebidos pelas comunidades, que alimentariam o animal e lhe satisfaria. Quanto a rápida menção feita no evento, assim escrevi:

            “O uso de elementos caprinos na Þorleifs þáttur jarlskálds em muito nos lembra as máscaras e disfarces utilizadas nos festejos de Natal comuns a diversas localidades da Escandinávia (entre as variantes das vestimentas estão Julebukk, Julbock, Julget etc) e com registros muito recentes” (MIRANDA, 2014, p. 21).

            Acontece que essa comunicação representou o início de minhas pesquisas para a tese a qual me dedico no momento, de maneira que há uma pesquisa em andamento e o que escrevemos aqui é apenas um apanhado geral e elementos curiosos sobre o tema. Antes de ir adiante, preciso fazer duas observações. Primeiro, o número de costumes relativos ao Natal na Escandinávia é muito grande para abordamos em um post como esse, o folclore é dinâmico, adota novos significados, absorve elementos de diversos contatos com outras culturas e vai se modificando. Muitos folcloristas tentaram pesquisar possíveis origens britânicas ou continentais desses costumes e, apesar da semelhança com alguns elementos folclóricos, como o galês Mari Lwyd (que foi na verdade registrado pela primeira vez somente no século XIX), tais comparações são puramente teoréticas.

            Segundo, apesar de ser quase irresistível traçar paralelos com passagens de fontes bem anteriores ao mundo contemporâneo, irei me abster de fazê-lo, atividade planejada para um artigo cientifico posterior. Estaremos deixando de lado figuras mais conhecidas como a Grýla, popular nas ilhas do Atlântico Norte, e as suas raízes dramáticas presentes em danças como Vikivaki, Kerlingaleikur etc, que revelam uma miríade de personagens como Haa-þóra, Gunnhildur gríðarsterki, Þórhildur, entre outras menções do folclore escandinavos ilhéu em favor de um mosaico de tradições da Escandinávia continental.

            Dessa maneira, podemos localizar as performances de visitas do período natalino entre os escandinavos continentais nas seguintes atividades: O festival de Lucia na Suécia e Noruega, entre os dias doze e treze de dezembro; o Staffansreid, também encontrado na Finlândia entre os dias vinte e cinco e vinte e seis de dezembro; Stjärnspel e Trettondagsspel, no fim de dezembro e início de janeiro respectivamente; e o “bota fora” do Yule por São Canuto, entre sete e treze de janeiro, além do nosso Bode de Natal Julebukk ou Julegeit logo após o natal.

            Como lembra Terry Gunnell (GUNNELL, 1995, p. 95) Quatro dessas manifestações possuem uma carga cristã muito aparente (em sua superfície), com associações a Santa Lúcia (ou Santa Luzia) e São Estefano (Staffan, Stephanus), com o martírio de São Canuto e na encenação da visita dos Três Reis Magos em Stjärnspel e em Trettondagsspel, onde carregam consigo uma estrela. É facilmente apontado, nesses festejos, a influência da cultura medieval continental sobre a Escandinávia sob uma rasa suposição de que costumes cristãos chegaram até as áreas mais urbanizadas da Europa setentrional se opondo, ou, até mesmo, se apropriando de antigas comemorações pagãs dos rincões rurais (uma visão não dificilmente romântica), mas quando se aventura a investigar com um pouco mais de profundidade, depara-se facilmente com algumas curiosidades, a exemplo do festival de Lucia (também Lussi e Lusse) e a imagem da garotinha com uma coroa de velas cantando “Santa Lúcia”!



Figura 1: Isolda Langer com coroa de velas (João Pessoa, 2013), arquivo pessoal da professora Luciana de Campos.

            Entretanto o uso contínuo do nome “Lusse Longa Noite” (Lusse Långnatt) sugere que o festejo esteja associado com o solstício de inverno, fixado no calendário juliano como o dia treze de dezembro por volta do século XIV na Escandinávia. Inclusive a tradição de Lucia na Noruega ocidental (e em alguns lugares da Suécia), como continua Terry Gunnel (1995, pp. 98-99), raramente é apresentada na forma da jovem donzela em branco, mas como uma Troll que visita as granjas na noite de treze de dezembro, acompanhada de um grupo de espíritos malignos (Lussiferd). A velha Troll na Gotlândia Ocidental, Värend e Dalarna, por exemplo, é descrita como coberta por palha, peles de cabra e capa vermelha, com uma aparência que lembra muito o nosso Bode de Natal, mas também o Halm-Staffan do festival de São Estefano.

            É fácil se perder na discussão. Mas o que quero fazer o leitor entender, é que as diferentes tradições folclóricas de festejo natalino na Escandinávia continental possuem camadas complexas de interações culturais muito além de uma oposição entre “tradições cristãs” e “tradições pagãs”. Vamos voltar aos nossos Bodes e Cabras. Quando falamos em Julebukk, estamos nos referindo a uma abundância de representações que podem vir na forma da atuação em disfarce no natal (ligados tanto a máscara quanto ao espírito do animal), mas também a certas figuras de palha feitas à mão, talvez as representações mais famosas hoje.

            O registro mais antigo de menção direta ao Bode de Natal é de um raageit, uma cabeça de Bode em um mastro, na Noruega em 1646, onde o Julebukk é descrito como uma pessoa disfarçada com um cobertor. No século posterior, em 1781, começam a aparecer registros de Bodes e Cabras de Natal se casando e assustando crianças. Um registro de 1750 fala que alguém disfarçado de Bode chegou a quase matar uma mulher de susto.

            O Bode poderia ser interpretado e apresentado de diversas maneiras: 1) coberto com peles e em quatro patas; 2) curvado com o apoio de uma bengala e a cabeça articulada; 3) alguém usando apenas uma máscara, que poderia ser articulada e com dentes de ferro, a fim de fazer barulho quando as peças batessem uma na outra; 4) em pares, o Bode e a Cabra de Natal (Julebukk e Julegeit); etc.

            Outros animais também assumiram, regionalmente, o papel do Bode, ainda que, segundo a prospecção de Christine Eike (2007, p. 72-73) também se chamavam Julebukk: a) pássaros em Troms; b) ursos em Setesdal e em Røldal, que também eram chamados de Drykkjebassan ou Fydlebasser (Ursos Bebedores e Ursos Bêbados); c) Porcos em Oppland; d) Cavalo, em um único registro de uma máscara articulada com mandíbulas que faziam barulho, também em Oppland. Apesar do costume estar sendo retomado com certo vigor hoje, na segunda metade do século XX, o termo Julebukk começou a ser usado de forma geral para encontro de pessoas mascaradas, geralmente festas e bailes. A fabricação manual de máscaras decaiu em razão do surgimento das máscaras de plástico manufaturadas, e a figura do Bode foi sendo cada vez mais trocada pela de Papai Noel.

            Seja como for, como despedida deixamos alguns testemunhos da Suécia do início do século XX, recolhidos em arquivo por Eva Knuts, sobre a atuação do Bode de Natal durante o Natal, sinalizo aqui três situações diferentes a fim de melhor ilustrar a diversidade de situações e maneiras em que o personagem interagia com as pessoas. No primeiro caso o Bode atua no mesmo papel do Papai Noel (contrariando a norma, pois o Bode sempre deve ser agradado com comida ou dinheiro), entregando presentes a uma família rica, sendo o Bode algum serviçal da casa. No segundo caso, um grupo de garotos se juntam para conseguir dinheiro, e a indumentária do Bode é descrita em minúcias. No terceiro caso, o bode anima uma festa entre amigos.  

            “O Julbock nunca veio à minha vizinhança, ao menos não como algo de casa em casa. Mas nas famílias mais abastadas, e especialmente na alta sociedade, não era difícil para um dos homens ou um dos servos se disfarçar como um Bode. Se os chifres do Bode não estivessem disponíveis, eram usados grandes chifres de carneiro no lugar, e as vezes a pele desse animal também. Como regra, havia uma garota ou uma esposa habilidosa que ficava responsável pela roupa. Vestido assim e de quatro, o Bode ia de membro em membro da família, carregado de presentes de Natal, de modo que eles poderiam facilmente se soltar quando sacudidos. Após um monte de barulho e confusão, de pancadas na porta, o Bode vinha até o salão. Era uma boa festa e do tipo que era aproveitada pelos mais jovens e pelos mais velhos”

            “O Natal era o período do Julbocken como nós chamamos. Um grupo de jovens iam de casa em casa, um deles disfarçado de Bode. Curvado ao meio e com uma bengala para lhe ajudar, algum tipo de capa ou coberta deveria ser jogada sobre as suas costas. O disfarce deveria ser finalizado com a cabeça estufada de um Bode com chifres e uma barba cobrindo uma bolsa debaixo do queixo. A pessoa disfarçada andaria por aí com sua bengala e puxaria uma corda para fazer a boca do Bode abrir. Um lenço feito para parecer uma língua seria então puxada para fora e o Bode berraria: - Baaaa, dinheiro na minha barba! E todo o grupo sairia da festa com o dinheiro coletado”.

             “Essas festas acabam sendo muito divertidas. Quando estávamos no auge da dança, alguém aparecia todo vestido e bancava o palhaço. Normalmente alguém aparecia vestido como Julbock, coberto com a pele de Bode e chifres na cabeça. O Bode podia vir também com um pequeno sino amarrado entre as pernas para tornar a coisa mais engraçada e fazer as garotas corarem. O Bode então percorria a sala, empurrando e atropelando as pessoas que encontrava. As pessoas poderiam ainda se disfarçar com trapos e escurecer a face com fuligem” (KNUTS, 2007, pp. 129 – 132).



Figura 2: Julegeit exposto no Fredrikstad Museums. Retirado do site http://arkiv.ostfoldmuseene.no/stikkord/fredrikstad-museum/ visitado em 23 de dezembro de 2017



Figura 3: Foto retrato de 1917 de Julebukk. Retirado do site http://mylittlenorway.com/wp-content/uploads/2008/12/go-julebukk-1917.png visitado em 23 de dezembro de 2017.



Ele não foi antes que ele tivesse alguns dos deliciosos pratos de natal como porco, salsichas, queijos ou bolos, nozes e maçãs”.

Figura 4: Cartão desenhado por Benjamin Dahlerup sob instruções de M. Kramer Petersen, século XX. Retirado do site http://www.kb.dk/da/nb/fag/dafos/Dagligliv.dk/Temaer/Top_eller_bund/Indsigt/Dokumenter/Helte_for_og_nu/index visitado em 23 de dezembro de 2017.



 Figura 5: Reconstituição de um Bode de Natal. Retirado do Blog http://blog.dengamleby.dk/julehistorier/tag/rumlepotte/, visitado em 23 de dezembro de 2017.



Referências:

EIKE, Christine. Masks and Mumming Traditions in Norway: a survey. In: GUNNEL, Terry. Masks and Mumming in the Nordic Area. Uppsala: Kungl. Gustav Adolfs Akademien för svensk folkkultur, 2007, pp. 47-106.

GUNNELL, Terry. The Origins of Drama in Scandinavia. Cambridge: D. S. Brewer, 1995.

KNUTS, Eva. Masks and Mumming Traditions in Sweden: a survey. In: GUNNEL, Terry. Masks and Mumming in the Nordic Area. Uppsala: Kungl. Gustav Adolfs Akademien för svensk folkkultur, 2007, pp. 107-188.

MIRANDA, Pablo Gomes de. Mito e Xamanismo: a caçada selvagem nas baladas de Helgi Hundingsbani. In: Notícias Asgardianas (Nova Série), n. 8, João Pessoa: PB/NEVE, 2014, pp. 19-26.